Paul Klee (Münchenbuchsee, 18 de dezembro de 1879 — Muralto, 29 de junho de 1940) foi um pintor, desenhista, poeta e professor que nasceu e cresceu na Suíça mas de nacionalidade alemã. Seu estilo altamente individual foi influenciado por movimentos artísticos que incluíam expressionismo, cubismo e surrealismo. Klee era um desenhista nato que experimentou e acabou explorando profundamente a teoria das cores, escrevendo extensivamente sobre ela, além de deixar importantes reflexões sobre o processo criativo e a teoria do abstracionismo, do qual foi um dos pioneiros. Foi um dos principais mestres ativos na Bauhaus. Deixou cerca de 10 mil obras e é considerado um dos mais destacados artistas do modernismo.
Klee nasceu em Münchenbuchsee (próximo a Berna), Suíça, em uma família musical. Seu pai, o alemão Hans Klee (1849-1940), nasceu em Thann, na Alemanha, e estudou piano, violino e canto em Stuttgart. Ali encontrou Ida Frick, de Basileia, que estudava canto. Casaram em 1875, e depois se mudaram para a Suíça. Hans lecionou música até 1931 no Seminário Estatal de Hofwil. O casal teve dois filhos: Mathilde, nascida em 1876, e Paul, nascido em 1879.
Klee se apresentou na arte e na cultura muito cedo. Aos sete anos começou a aprender violino, tornando-se proficiente aos onze, quando ingressou numa orquestra que dava concertos na Sociedade de Música de Berna. O interesse pela música o acompanharia por toda a vida. Também precoce foi sua introdução nas artes visuais, desenhando desde a infância, mas ao contrário da música, este talento não foi encorajado pelos pais, que desejavam ver o filho um músico profissional. Contudo, na música Klee foi um conservador, considerava que este campo estava em declínio, preferia a música dos séculos XVIII e XIX e a produzida pela vanguarda do seu tempo não o atraía. Já como um artista visual, ele se deu liberdade para explorar ideias e estilos radicalmente inovadores. Além disso, ele se interessava profundamente pela literatura, e por muitos anos acalentou um desejo de ser poeta, que só seria abandonado em 1902, quando conscientizou-se que tinha mais talento com as artes visuais, embora continuasse escrevendo poesia intermitentemente até o fim da vida. Estava amplamente informado sobre as novas tendências, mas seu estilo poético era em geral mais conservador.
Durante seus anos na escola, cobria seus cadernos e livros com desenhos, especialmente caricaturas. Fez seus exames finais em 1888, e em seguida partiu para Munique, onde pretendia ser admitido na Academia de Belas Artes, mas foi recusado, sendo aconselhado a tomar aulas preparatórias com Heinrich Knirr. A partir de 1899 teve aulas de gravura com Walter Ziegler. Em fevereiro de 1900 mudou-se para seu próprio estúdio e em 11 de outubro de 1900 começou aulas de pintura com Franz von Stuck na Academia de Belas Artes, mas não apreciava o método de ensino e abandonou o curso em 1901.
Munique era uma dinâmica metrópole e sua estadia ali lhe proporcionou não apenas preparo em arte, mas também experiências importantes em ópera, literatura e teatro, o início de sua vida sexual, e o convívio com um grupo de estudantes que eram dados à vida boêmia e à prática de música. Através deste grupo Klee conheceu uma modelo com quem teve um filho em 1900, que viveu poucas semanas, e conheceu também Lily Stumpf, com quem casaria em 1906. Lily era filha de um médico e fez carreira inicialmente como pianista, mas logo a abandonou para dedicar-se à docência. Com ela Klee teve seu único filho, Felix, nascido em 1907. O diário que manteve até 1918 é uma rica fonte para o conhecimento de sua vida e suas ideias em seu primeiro período.
Após receber a formação básica em Belas Artes, Klee permaneceu na Itália por vários meses entre 1901 e 1902 com seu amigo Hermann Haller. Eles visitaram Milão, Gênova, Livorno, Pisa, Roma, Porto d'Anzio, Nápoles, Pompeia, Sorrento, Positano, Amalfi, Gargano e Florença, e estudaram os mestres da pintura dos séculos passados, o que foi uma experiência importante para seu enriquecimento cultural e artístico.
Ao voltar da Itália, viveu com seus pais em Berna, fazendo ocasionalmente outros cursos de arte em Munique, e ganhando algum dinheiro como violinista e revisor de partituras na Sociedade de Música de Berna. Em meados de 1905 viajou a Paris com seus amigos de infância, o artista Louis Moilliet e o escritor Ernst Bloesch, onde estudou arte antiga no Louvre e na galeria do Palácio de Luxemburgo, e enquanto isso entrava em contato com o impressionismo. Em 1906 visitou a exposição Um Século de Arte Alemã em Berlim e finalmente mudou-se para Munique em setembro do mesmo ano, onde em 15 de setembro se casou com Lily Stumpf. Em maio de 1908 Klee tornou-se membro da associação de artistas gráficos suíços Die Walze e no mesmo ano participou com três obras na exposição da Secessão de Munique, com seis obras na mostra da Secessão de Berlim, e na exposição no Palácio de Vidro de Munique.
Neste período ele desenvolveu algumas técnicas experimentais, o que resultou em 67 obras incluindo o Retrato de Meu Pai (1906). Ele também completou um ciclo de 11 gravuras em placas de zinco, as Invenções – suas primeiras obras a serem exibidas, nas quais ele ilustrava várias criaturas grotescas. Klee ainda estava dividindo seu tempo com a música, tocando violino em uma orquestra, e escrevendo análises de concertos e peças de teatro.
Ele e Lily viveram em um subúrbio de Munique, e, enquanto a mulher o sustentava dando aulas de piano e fazendo ocasionais apresentações, ele se dedicava a seu trabalho artístico e à criação do filho, que ficava principalmente por sua conta. Klee tentou, sem sucesso, ser um ilustrador em uma revista. O trabalho artístico de Klee progrediu lentamente pelos próximos cinco anos, parcialmente por ele dividir seu tempo com questões domésticas, e também porque ele ainda não havia encontrado seu caminho na pintura. Nesta época suas obras frequentemente são tomadas por uma atmosfera infantil, o que pode refletir seu papel de protagonista na criação do seu filho. As temáticas, contudo, parecem ser secundárias, e seu principal interesse estava na pesquisa de forma e cor, tentando romper com o naturalismo. Conforme escreveu em seu diário, ele não estava interessado em representar a realidade externa.
Em 1910 organizou a primeira exibição individual em Berna. No ano seguinte, criou algumas ilustrações para uma edição de Cândido de Voltaire, a partir do estímulo de Alfred Kubin, destacado artista gráfico. Naquele ano conheceu Wassily Kandinsky, Franz Marc e outras figuras de vanguarda, associando-se ao grupo artístico conhecido como Der Blaue Reiter (O Cavaleiro Azul), que fizeram sua primeira exposição em 1911, mas Klee não participou dela.
Ao se encontrar com Kandinsky, Klee relembrou: “Eu tive uma profunda sensação de confiança nele. Ele é alguém, e tem uma mentalidade excepcionalmente bela e lúcida”. A associação abriu sua mente para as modernas teorias das cores. Suas viagens à Paris em 1912 também o expuseram ao cubismo e aos exemplos pioneiros da “pintura pura”, um antigo termo para se referir à arte abstrata. As cores fortes usadas por Robert Delaunay e Maurice De Vlaminck também o inspiraram. Ao invés de copiar estes artistas, Klee começou a trabalhar com seus próprios experimentos com cores em aquarelas pálidas e criou algumas paisagens primitivas, como In The Quarry (1913) e Houses Near The Gravel Pit (1913), usando blocos de cores com sobreposição limitada. Klee reconheceu que, para alcançar este “nobre e distante objetivo”, “tenho de fazer ainda um grande esforço neste campo das cores”.
Pouco depois se aproximou do grupo dadaísta de Zurique, onde atuavam Hans Arp, Tristan Tzara e outros, e faria algumas exposições com eles até a década de 1920, mas foi uma interação limitada. Em 1914 Klee teve uma experiência transformadora ao fazer uma breve visita à Tunísia com August Macke e Louis Moilliet, impressionando-se com a qualidade da luz de lá. Em seu diário registrou: "A cor tomou posse de mim; eu não mais tenho que persegui-la, pois sei que ela está presa a mim para sempre. A cor e eu somos um. Eu sou um pintor". Com esta percepção, a fidelidade à natureza perde sua importância. Ao invés, Klee começa a se arraigar no "romantismo da abstração". Klee consegue, com sucesso, incorporar uma nova qualidade cromática às suas obras, e um dos exemplos mais literais desta síntese é O Bávaro Don Giovanni (1919).