Pedro da Silva Nava (Juiz de Fora, 5 de junho de 1903 – Rio de Janeiro, 13 de maio de 1984) foi um médico e escritor brasileiro.
Formou-se em medicina na Universidade Federal de Minas Gerais em 1927 e participou da geração modernista de Belo Horizonte. Médico, foi dos poucos não-juristas a assinar o Manifesto dos Mineiros. Foi o maior memorialista da literatura brasileira, autor de sete livros: Baú de Ossos, Balão Cativo, Chão de Ferro, Beira-Mar, Galo das Trevas, O Círio Perfeito, Cera das Almas (Nava, 2006) (póstumo, incompleto). Neles, Pedro Nava traçou um painel completo da cultura brasileira no século XX, incluindo costumes familiares e cultura popular. A obra memorialística de Nava é monumental no escopo temporal, abrangendo quase dois séculos, na riqueza temática, vocabular e estilística, no tamanho (umas 2600 páginas) e na erudição e "consagrou-se como o monumento literário mais notável do memorialismo brasileiro, sem similares em qualquer época". Pedro Nava foi eleito membro da Academia Nacional de Medicina em 1957, sucedendo Irineu Malagueta de Pontes na Cadeira 06, que tem Manuel de Valadão Pimentel como patrono.
Nascido em Juiz de Fora, Minas Gerais, no dia cinco de junho de 1903, Pedro da Silva Nava era filho do médico cearense José Pedro da Silva Nava com a mineira Diva Mariana Jaguaribe Nava.
Pedro Nava ingressou na Faculdade de Medicina de Belo Horizonte(hoje Universidade Federal de Minas Gerais) em 1921 e logo se enveredou para os estudos de Anatomia Humana, o que mais adiante seria percebido como uma chave mestra de compreensão entre as inspirações médicas e literárias de Pedro Nava. Era a área da medicina que mais o encantava. Em 1920, aos 17 anos, respondeu a um “questionário” no Colégio Pedro II, no Rio. Esse tipo de enquete era comum entre colegas de turma. Elaborado por Carlos Paiva Gonçalves, destacam-se três perguntas e respostas:
A vida é como um anfiteatro anatômico: aí estudamos as chagas sempre abertas, vemos a podridão, o mal, o horror, o cancro e o pior de tudo a “hipocrisia do otimismo”, tudo num montão de lama – a sociedade.
— 6. Que carreira pretendes seguir?
Porque é a que me oferece mais encantos, porque por intermédio dela estudarei este emaranhado de vasos, esta reunião de músculos, esta teia de nervos, que compõem este monte de elementos apodrecidos."
Em 1928 se formou, mas já atuava em cargos públicos nos setores de Saúde em Belo Horizonte. O círculo familiar e afetivo da Nava teve boas influências tanto na sua vida intelectual, quanto na medicinal. Por ter sido filho de médico e parente de pessoas influentes nas cidades onde morou, sempre esteve em bons cargos públicos da área de saúde. Dentre os feitos da sua carreira como médico, Nava foi membro da Sociedade Brasileira de Medicina e Cirurgia, foi livre docente em Clínica Médica na Universidade do Brasil, diretor do Hospital Carlos Chagas, dentre outros feitos. Foi designado pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC) para estudar, na Europa, a organização de clínicas reumatológicas. A escrita das Memórias ocorreu após a aposentadoria do médico no Serviço Público, em 1969; o autor, entretanto, permaneceu atendendo em seu consultório particular até 1983. O abandono da atividade médica deveu-se ao início de surdez, fazendo com que Nava se debruçasse de vez na literatura.
Suas páginas sobre a medicina são das maiores da literatura brasileira. A Belo Horizonte dos anos vinte e o Rio Antigo aparecem em suas narrativas como uma força poética e uma profundidade observacional que muitas vezes se transformam em pura poesia, levando o leitor a um mundo mágico. Segundo Carlos Drummond de Andrade, "possuía essa capacidade meio demoníaca, meio angélica, de transformar em palavras o mundo feito de acontecimentos." Nava também possuía grande talento de pintor, e só não o foi profissionalmente por opção.
Nos seis volumes de memória de Pedro Nava há o caráter ideológico ao relatar as efemeridades de sua vida, bem como as reflexões que faz sobre os fatores sociais que o circundam, em principal, seu ofício da cura. Experiências de vida — profissionais e pessoais — e visões de sociedade se misturam num emaranhado de sucessivas mudanças de cidades, cargos exercidos e perda de familiares por falecimento, bem como as sucessivos eventos históricos que o Brasil e o mundo viviam na primeira metade do século XX.
As memórias e reflexões sobre a profissão médica sempre estiveram presentes nas Memórias de Pedro Nava. Epidemias, episódios notáveis e doenças que o acometeram, bem como a juventude nos tempo da Faculdade de Medicina de Belo Horizonte e Colégio Pedro II, o convívio com o pai médico, as constantes mudanças de cidade, tudo isso sempre suscitou divagações do autor.
O baú de ossos surpreende, assusta, diverte, comove, embala, inebria, fascina o leitor, com suas memórias da infância. Doutores, políticos, intelectuais, comerciantes, aventureiros, senhoras, desfilam nas páginas do amigo de Carlos Drummond de Andrade.
Não importa muito a direção. O balão cativo representa o lado noruega de Juiz de Fora. Pedro Nava mergulhou na leitura de Defoe, Dickens, Ruskin, Byron, Shelley, Tennyson, Longfellow, Walt Whitman, Camões, Camilo, Fialho, Gil Vicente, Lima Barreto, Artur Azevedo, Nabuco e Machado de Assis. Tudo era sagrado porque tudo era letra impressa.
Ocorrida quando o autor tinha oito anos de idade, a morte do pai é o marco inicial das lembranças de Nava sobre aquele período. Até então residente no Rio, para onde se mudara em busca das benesses da prosperidade e da civilização, a família - agora reduzida à mãe, Diva Jaguaribe Nava, e seus cinco filhos pequenos - viu-se obrigada a retornar para Minas, onde as paredes, janelas e árvores da casa de Inhá Luísa, a implacável avó materna, testemunharam os últimos anos da infância do autor. Aos 11 anos, Nava abandona a educação mais ou menos informal que até então vinha recebendo para matricular-se no recém-inaugurado internato do Ginásio Anglo-Brasileiro, em Belo Horizonte. O autor havia se transferido para a capital mineira em 1913, novamente na companhia da mãe e dos irmãos. Em 1916, já adolescente, retorna ao Rio de Janeiro, onde inicialmente se hospeda na casa de parentes antes de ser admitido no internato do Colégio Pedro II, um dos colégios mais tradicionais do país.
O chão de ferro da Rua Major Ávila era perto do centro de Minas, do mundo mundo vasto mundo. A descrição das aulas no Colégio Pedro II naquele 1917 é de fina categoria. Falta de sono e insônia. Aos quinze anos surge nas memórias o heterônimo do Nava, o Egon.
O narrador se desloca de trem entre esses dois polos todo o tempo: no Rio está o colégio interno; em Minas, as férias com a família e, posteriormente, a faculdade em que ingressa em 1921. Não são polos meramente geográficos, mas dimensões existenciais, afetivas, intelectuais, sociais, culturais e civilizatórias distintas.
A última década da República Velha testemunhou eventos políticos e culturais que forjaram a feição do Brasil moderno, entre os quais a Semana de Arte Moderna de 1922, as revoluções tenentistas e a Coluna Prestes. Cronista privilegiado desse período da história do país - pois foi ao mesmo tempo observador e ator de importantes desdobramentos do modernismo, além de amigo de futuros políticos eminentes -, Pedro Nava apresenta em Beira-mar a quarta parte de sua suntuosa saga memorialística.
Beira-mar deveria ser leitura obrigatória para alunos de medicina. Nava descreve seu primeiro amor, e o suicídio da filha do seu professor. Em 1922, surge nas memórias o nome de JK, Juscelino Kubitschek de Oliveira, colega de turma do autor.