Pierre Le Gros, o Jovem (Paris, 12 de abril de 1666 – Roma, 3 de maio de 1719), também conhecido como Pierre Le Gros II ou Pierre Legros, foi um escultor francês que trabalhou principalmente em Roma, realizando diversas obras importantes para clientes eclesiásticos, em especial os jesuítas e dominicanos.
Le Gros pertenceu à escola barroca de escultura, e seu estilo, fiel à escola, mostra um notável dinamismo e dramaticidade, enquadrando-se ademais na filosofia da Contra-Reforma para as artes, que era a diretriz adotada pelo clero católico, ao qual serviu, para a decoração de seus locais de culto. Tal diretriz procurava em essência usar a arte para a propaganda da fé e da Igreja institucionalizada, representando temas sobre as vidas dos santos e mártires, e sobre os princípios fundamentais da doutrina, sempre didaticamente e com um apelo direto à emoção, buscando maravilhar o devoto em composições grandiloquentes instaladas em ambientações suntuosas.
Mesmo sendo francês de nascimento, sua arte é mais adequadamente estudada dentro da história da escultura italiana, pela qual foi mais influenciado e para a qual deu a sua mais importante contribuição, do que da francesa. No apogeu de sua carreira foi o escultor mais procurado pela elite eclesiástica romana, sendo louvado como um artista de gênio, mas no fim da vida, por vários motivos, teve de procurar outros mercados. Deixou algumas peças no norte da Itália e na França, todas também de qualidade. Hoje é tido como o principal nome da escultura barroca italiana das primeiras décadas do século XVIII.
Nasceu em uma família de fortes raízes artísticas. Era filho de Pierre Le Gros, o Velho, também escultor, com quem se iniciou na arte, e de Jeanne, a primeira esposa de seu pai, filha do escultor Gaspard Marsy. Várias fontes do século XIX dão seu nascimento em 1656, e discordam em algumas outras datas. Com três anos perdeu a mãe. Convencido de que o desenho era fundamental para uma carreira bem-sucedida, o Velho fez o filho tomar lições com Jean Le Pautre, seu parente. Também manteve contato com os seus parentes maternos, os escultores Gaspard e Balthazard Marsy, de quem recebeu instrução, e de quem herdou o atelier aos quinze anos. Ingressou na Academia Real de Pintura e Escultura e em 1690 conquistou o Prêmio de Roma, sendo enviado à Itália para aperfeiçoamento, estabelecendo-se nas dependências da Academia da França em Roma. Ali realizou uma cópia de uma estátua antiga de Vetúria, a mãe de Coriolano, então exposta na Villa Medici, que suscitou viva polêmica quando finalmente foi exposta no Jardim das Tulherias, muitos anos depois de sua realização. Uma carta do diretor da academia, Matthieu de La Teulière, registra que era tido como excelente aluno.
Em 1695 foi realizado um concurso pelos jesuítas para a elaboração da estátua de Santo Inácio de Loyola em sua capela na Igreja de Jesus. Le Gros submeteu um projeto e saiu-se vencedor, e quando o resultado da votação foi publicado ele foi carregado em triunfo pelas ruas pelos estudantes da academia francesa. Le Gros também concordou em criar o grupo representando A Religião açoitando a Heresia e o Ódio a ser instalado à direita do altar. Contudo, ele havia aceito a encomenda dos jesuítas sem pedir autorização prévia da Academia. La Teulière escreveu para Paris informando a seus superiores da irregularidade, mas dizendo que era uma honra para um artista tão jovem ter seu projeto escolhido entre os de vários mestres concorrentes, e que o de Le Gros havia sido objeto de aplauso geral, sendo visto como um escultor de gênio. Na resposta da sede acadêmica, foi aceito o afastamento de Le Gros da academia para atender à encomenda, mas perderia a sua bolsa de estudos, pois o rei não havia ficado satisfeito com a conduta do pensionário. Mesmo assim, foi recomendado a La Teulière que desse ao jovem a assistência possível para que seu trabalho resultasse bem.
Partindo de forma amigável, não chegou a cair em desgraça junto aos franceses, continuando a manter laços com seus conterrâneos. Por outro lado, conseguiu ser patrocinado pela família Farnese, estabelecendo um atelier no Palazzo Farnese. Doravante sua carreira se consolidou; contratou vários assistentes e cercou-se de discípulos e amigos de várias nacionalidades. Pouco tempo depois o Cardeal de Bouillon, embaixador francês em Roma, encomendou esculturas para um ambicioso mausoléu familiar que ele pretendia erguer na Abadia de Cluny, em Saône-et-Loire, que não foi montado no sítio previsto, mas cujas esculturas, concluídas apenas em 1707, hoje são exibidas no Hôtel-Dieu de Cluny. Destacam-se as estátuas de Frédéric-Maurice de la Tour d'Auvergne e sua esposa, sentados, e um baixo-relevo com uma cena de cavalaria, todas de grande virtuosismo.
O sucesso das encomendas valeu-lhe diversas outras, e ele rapidamente se tornou o mais requisitado escultor da cidade. A seguir foi contratado novamente para outras obras de vulto: em 1698, para os jesuítas esculpiu um grande relevo de São Luís Gonzaga na glória; ao mesmo tempo para os dominicanos criou um relevo para o esquife do papa Pio V e uma tumba para o Mestre dos dominicanos, Antonin Cloche. Em 1701 fez uma estátua de São Francisco Xavier, para a Basílica de Santo Apolinário, e no ano seguinte outra obra importante, uma estátua do santo Estanislau Kostka em seu leito de morte, para o noviciado anexo à Igreja de Santo André no Quirinal, a cujo respeito cerca de dez anos mais tarde se envolveu em uma ácida disputa com os jesuítas. Contudo, esta obra foi uma surpresa para o mundo da arte romana, uma vez que empregou mármores policromos, afastando-se da tradição que usava apenas o mármore branco. Entrementes, em 1700 fora eleito com unanimidade como Acadêmico de Mérito da Accademia di San Luca.
Le Gros havia casado uma primeira vez em 1701 com Marie Petit mas, ela logo falecendo, em 1704 casou-se novamente com Marie Charlotte, filha de René-Antoine Houasse, diretor da Academia da França em Roma, e através do enlace se tornou cunhado de Nicolas Coustou, outro conhecido escultor, e tio de Giovanni Paolo Pannini e Nicolas Vleughels, diretor da Academia da França em Roma entre 1725 e 1737 e um dos mais bem sucedidos intermediários entre esta instituição e o meio artístico romano.
A partir de 1703 se envolveu na criação de duas estátuas monumentais para a Basílica de São João de Latrão, representando os apóstolos Bartolomeu e Tomé, e mais a tumba do Cardeal Casanate para a mesma igreja. Outra obra de grandes proporções foi a estátua de São Domingos para a Basílica de São Pedro, finalizada em 1706. Neste ano recebeu uma incumbência de uma estátua do Cardeal Casanate para a Biblioteca Casanatense, anexa ao convento dominicano da Igreja da Minerva, acabada em 1708, e se responsabilizou também por outros elementos decorativos do átrio da biblioteca e da escadaria. Entre 1708 e 1710 ele colaborou com seu amigo, o arquiteto Filippo Juvarra, na criação da Capela Antamori na Igreja de São Jerônimo da Caridade, realizando uma estátua de São Filipe Neri. Ao mesmo tempo esteve envolvido com a criação de uma grandiosa tumba para o papa Gregório XV e seu sobrinho, o Cardeal Ludovisi, na Igreja de Santo Inácio de Loyola, realizada em c. 1709-1714. Outras de suas peças mais conhecidas desta década de atividade febril são o projeto de um relevo para a Igreja de São Tiago dos Incuráveis, realizado sob sua supervisão e representando São Francisco de Paula sobre uma nuvem invocando a Virgem Maria, rodeado de anjos, e o projeto do catafalco de Luís, Duque da Borgonha, pai de Luís XV, na Igreja de São Luís dos Franceses.
Seguindo-se à morte de seu pai em 1714, aparentemente tendo perdido seu prestígio junto aos jesuítas em virtude da disputa sobre a estátua de Estanislau Kostka, estando a estrela de seu principal concorrente, Camillo Rusconi em franca ascensão, protegido do papa Clemente XI, e estando Le Gros doente de pedras na vesícula, em abril de 1715 estabeleceu-se na casa de seu amigo Pierre Crozat em Paris, onde pretendia buscar uma cura para seu mal, organizar seu legado e continuar sua carreira em condições mais propícias. Fez desenhos para esculturas em um gabinete da mansão de Crozat, realizadas em estuque e mostrando os gênios das várias artes, e outros projetos decorativos para a capela da mansão do mesmo Crozat em Montmorency, ilustrando uma glória do Espírito Santo rodeado de cabeças de querubins, e elementos menores em outros pontos do altar. Mas sua estada na França, segundo os relatos antigos, foi amarga. Tentou ser recebido na Academia Francesa sem ser obrigado a apresentar uma peça de admissão, como era o costume, confiando em sua fama já estabelecida, mas foi recusado, o que parece ter-lhe sido causa de duradouro desgosto.