Os povos indígenas do Brasil compreendem um grande número de diferentes grupos étnicos que habitam o país desde milênios antes do início da colonização portuguesa, que principiou no século XVI, fazendo parte do grupo maior dos povos ameríndios. No momento da chegada dos portugueses ao Brasil, os povos nativos eram compostos por povos seminômades que subsistiam da caça, pesca, coleta e da agricultura itinerante, desenvolvendo culturas diferenciadas. Apesar de protegida por muitas leis, a população indígena foi amplamente exterminada pelos conquistadores diretamente e pelas doenças que eles trouxeram, caindo de uma população de milhões para cerca de 150 mil em meados do século XX, quando continuava caindo. Apenas na década de 1980 ela inverteu a tendência e passou a crescer em um ritmo sólido. No censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística de 2022, 1 693 535 brasileiros se autodeclararam indígenas, embora milhões de outros tenham algum grau de ascendência indígena. Ainda sobrevivem diversos povos isolados, sem contato com a civilização dominante.
Os povos indígenas brasileiros deram contribuições significativas para a sociedade mundial, como a domesticação da mandioca e o aproveitamento de várias plantas nativas, como o milho, a batata-doce, a pimenta, o caju, o abacaxi, o amendoim, o mamão, a abóbora e o feijão. Além disso, difundiram o uso da rede de dormir e o costume do banho diário, desconhecido pelos europeus do século XVI. Para a língua portuguesa legaram uma multidão de nomes de lugares, pessoas, plantas e animais (cerca de 20 mil palavras), e muitas de suas lendas foram incorporadas ao folclore brasileiro, tornando-se conhecidas em todo o país. Também foram importantes aliados dos portugueses, mesmo que involuntários, na consolidação da conquista territorial, defendendo e fixando cada vez mais distantes fronteiras, e deram grande contribuição à composição da atual população nacional através da mestiçagem.
Suas culturas diversificadas compunham originalmente um rico mosaico de tradições, línguas e visões de mundo que, depois de serem longamente desprezadas como típicas de sociedades bárbaras, ingênuas e atrasadas, ou no máximo apreciadas como exotismos e curiosidades, hoje já começam a ser vistas em larga escala como culturas complexas, sofisticadas em muitos aspectos, interessantes por si mesmas e portadoras de valores importantes para o mundo moderno, como o respeito pela Natureza e um modo de vida sustentável, merecendo consideração como qualquer outra. Mesmo assim, a degradação das culturas tradicionais pelo contato assíduo com a civilização tem sido rápida mesmo dentro das reservas, acarretando penosas repercussões sociais.
Para muitos observadores, o destino dos povos indígenas do Brasil ainda é incerto, e esperam muitas lutas pela frente. Os conflitos que os envolvem continuam a se multiplicar; mortes, abusos, violência e disrupção interna continuam a afligir muitas comunidades, mesmo com todos os avanços e toda proteção jurídica, com toda a conscientização política das comunidades e sua mobilização conjunta, e mesmo com o apoio de expressiva parcela da população brasileira não indígena e organismos internacionais. Há poderosos interesses políticos e econômicos em jogo, e mesmo interesses culturais. Ainda falta muito para que eles consigam garantir suas terras e uma sobrevivência digna e independente da tutela do governo, que historicamente os entendeu como incapazes e chamou a si a responsabilidade de "administrá-los", mas tem sido também incapaz de assegurar-lhes os direitos que já foram definidos constitucionalmente, e vem sendo acusado até de promover profundos retrocessos de maneira deliberada, que dão continuidade a um secular genocídio, atraindo com isso pesadas e incessantes críticas em casa e no estrangeiro.
Na Idade Média, a palavra "índio" era empregada para designar todas as pessoas do Extremo Oriente. Ao chegar às Américas, Cristóvão Colombo acreditou que havia encontrado um novo caminho para as Índias e chamou os nativos que encontrou de "índios". O conceito de "índio" é, portanto, uma invenção europeia, historicamente incorreta e para alguns grupos carrega um cunho depreciativo. Os habitantes originais das Américas nunca se viram como um só povo. Pelo contrário, diferentes grupos indígenas nutriam grande animosidade e constantemente guerreavam entre si. A denominação mais conhecida das várias etnias quase nunca é a forma como seus membros se referem a si mesmos, e sim o nome dado pelos brancos europeus ou por outras etnias, muitas vezes inimigas, que os chamavam de forma depreciativa, como é o caso dos caiapós, denominação que lhes foi atribuída por povos tupis e que significa "semelhante a macaco".
Todos os seres humanos descendem de antepassados que habitaram a África, local onde o Homo sapiens surgiu cerca de 300 mil anos antes do presente (AP). Por milhares de anos, a África foi o único lugar do mundo onde havia pessoas. Em geral acredita-se que as primeiras a saírem de lá o fizeram há cerca de 50-60 mil anos, mas talvez antes, e a partir de então passaram a se espalhar pelo resto do mundo. Sua primeira irradiação foi para o Oriente Médio, a única ligação terrestre da África com os outros continentes, e dali as correntes migratórias se dispersaram: algumas seguiram para o oeste, atingindo a Europa, enquanto outra parcela rumou para o leste, atingindo a Ásia e Oceania. O isolamento prolongado entre essas populações acabou por transformá-las, dando-lhes diferentes características físicas e hábitos de vida, adaptando-se a novos ambientes.
Os povos da América (ameríndios) são descendentes do grupo que seguiu para o leste e povoou a Ásia e Oceania. Sua penetração na América foi explicada por várias teorias, e atualmente a mais aceita diz que a passagem foi feita através do estreito de Bering durante a Idade do Gelo. Neste período, com o declínio da temperatura mundial, o gelo do mundo se expandiu, rebaixando o nível do mar e expondo terra seca entre a península de Chukotka, no extremo nordeste da Ásia, e a península de Seward, na América do Norte, criando uma ligação transitável entre os dois pontos, a terra da Beríngia. Ali o mar era raso e a exposição máxima de terra seca ocorreu entre 23 e 19 mil anos AP, expondo um istmo de mais de mil quilômetros de largura. No entanto, o gelo cobria a maior parte do norte do território americano, impedindo a progressão dos migrantes da Beríngia para o sul. Com a elevação das temperaturas, em torno de 15-14 mil anos atrás abriu-se um corredor no meio do gelo, possibilitando a passagem. Com o fim da Idade do Gelo o nível do mar subiu, e entre 12 e 11,3 mil anos AP a ligação dos dois continentes foi definitivamente inundada, bloqueando novas migrações e isolando as populações que ficaram na Ásia das que migraram para a América. Como não havia alternativa, essas pessoas continuaram se deslocando, ao longo de milhares de anos, povoando toda a América.
A penetração via Beríngia se consolidou como a melhor explicação para a origem dos povos da América. Análises linguísticas corroboram esses resultados, tendo sido encontradas similaridades entre as línguas faladas na Sibéria e aquelas faladas no continente americano, e também tem apoio na genética, mas ainda subsiste considerável incerteza sobre quando o homem penetrou no continente pela primeira vez, sobre quantos foram, se a migração aconteceu de uma só vez ou em ondas sucessivas, e como dali se desenhou o avanço para o sul.
Os estudos mais recentes tendem a apontar para o estabelecimento do núcleo genético ancestral na Sibéria/nordeste asiático em torno de 40 mil anos AP, a chegada na Beríngia de uma onda migratória principal a partir de c. 34 mil anos AP, com duas ou mais outras ondas, menores e posteriores, com pouca expressão em termos de volume de descendência; significativa diversificação genética durante a permanência na Beríngia, sem novos contatos com populações asiáticas, formando-se entre c. 24 mil e c. 18 mil anos AP pelo menos 15 linhagens distintas e exclusivas do continente americano, apontando para uma diversidade genética da população fundadora maior do que se pensava, e então ocorrendo diversos fluxos migratórios para o sul. Pelo menos uma das linhagens trazìa pequena parte de material genético oriundo da Oceania/sudeste asiático, mas esta linhagem em grande parte se extinguiu logo após a entrada na América e é ancestral de poucos povos modernos. Os pontos que ainda permanecem os mais disputados são o número de ondas migratórias e a cronologia dessas migrações.