O Processo de Galileu Galilei (em italiano: Il processo a Galileo Galilei) foi uma sequência de eventos, começando em torno de 1610, culminando com o julgamento e condenação de Galileu Galilei pela Inquisição Católica Romana em 1633 por sua defesa do heliocentrismo.
Em 1610 Galileu publicou Sidereus Nuncius (Mensageiro Sideral), descrevendo suas observações surpreendentes feitas com o novo telescópio das fases de Vênus e das luas de Júpiter. Com estas observações divulgou a teoria do heliocentrismo de Nicolau Copérnico (publicada em De revolutionibus orbium coelestium em 1543). As descobertas iniciais de Galileu vieram em oposição à Igreja Católica, e em 1616 a Inquisição declarou o heliocentrismo como formalmente herético. Os livros heliocêntricos foram banidos e Galileu recebeu ordens para abster-se de manter, ensinar ou defender ideias heliocêntricas.
Galileu passou a propor uma teoria das marés em 1616 e dos cometas em 1619; ele argumentou que as marés eram evidências para o movimento da Terra. Em 1632 Galileu, agora um homem de idade avançada, publicou seu Diálogo sobre os Dois Principais Sistemas do Mundo, que implicitamente defendia o heliocentrismo e era imensamente popular. Respondendo a uma controvérsia crescente sobre teologia, astronomia e filosofia, a Inquisição Romana julgou Galileu em 1633 e o acusou de "suspeito veementemente de heresia", condenando-o a prisão indefinida. Galileu foi mantido em prisão domiciliar até sua morte em 1642.
Galileu começou suas observações telescópicas na parte final de 1609, e por março de 1610 estava habilitado a escrever um pequeno livro, Mensageiro Sideral (Sidereus Nuncius), descrevendo algumas de suas descobertas: montanhas na Lua, algumas luas na órbita de Júpiter, e a resolução do que se pensava que eram massas com muitas nuvens no céu (nebulosas) em coleções de estrelas também difusas para ver individualmente sem um telescópio. Outras observações seguiram, incluindo as fases de Vênus e a existência de manchas solares.
As contribuições de Galileu causaram dificuldades para teólogos e filósofos naturais da época, pois contradiziam ideias científicas e filosóficas baseadas naquelas de Aristóteles e Ptolomeu e intimamente associadas à Igreja Católica. Em particular, as observações de Galileu das fases de Vênus, que a mostravam circundando o sol, e a observação das luas em órbita de Júpiter, contradiziam o modelo geocêntrico de Ptolomeu, apoiado e aceito pela Igreja Católica Romana, e defendiam o modelo copernicano avançado por Galileu.
Astrônomos jesuítas, especialistas em ensinamentos da Igreja, ciência e filosofia natural, foram primeiramente céticos e hostis às novas ideias; no entanto, dentro de um ano ou dois, a disponibilidade de bons telescópios permitiu-lhes a repetição das observações. Em 1611 Galileu visitou o Collegium Romanum em Roma, onde os astrônomos jesuítas por essa época repetiram suas observações. Christoph Grienberger, um dos estudiosos jesuítas da faculdade, simpatizou com as teorias de Galileu, mas foi convidado a defender o ponto de vista aristotélico por Claudio Acquaviva, o padre geral dos jesuítas. Nem todas as alegações de Galileu foram completamente aceitas: Cristóvão Clávio, o astrônomo mais distinto da época, nunca se reconciliou com a ideia de montanhas na Lua, e fora do colégio muitos ainda disputavam a realidade das observações. Em uma carta a Johannes Kepler de agosto de 1610, Galileu queixou-se de que alguns dos filósofos que se opunham às suas descobertas se recusaram até a olhar através de um telescópio:
Meu prezado Kepler, desejo que possamos rir da estupidez notável do rebanho comum. O que você tem a dizer sobre os principais filósofos desta academia que estão cheios da teimosia de uma víbora e não querem olhar os planetas, a lua ou o telescópio, apesar de eu ter oferecido livre e deliberadamente a oportunidade mil vezes? Verdadeiramente, assim como a víbora fecha seus ouvidos, esses filósofos fecham os olhos à luz da verdade.
Os geocentristas que verificaram e aceitaram as descobertas de Galileu tiveram uma alternativa ao modelo de Ptolomeu em um modelo geocêntrico (ou "geo-heliocêntrico) alternativo proposto algumas décadas antes por Tycho Brahe - um modelo no qual, por exemplo, Vênus circunda o sol. Brahe argumentou que a distância para as estrelas no sistema copernicano teria que ser 700 vezes maior que a distância do Sol a Saturno. Além disso, a única maneira de as estrelas serem tão distantes e ainda aparecerem com os tamanhos que elas têm no céu seria se mesmo as estrelas comuns fossem gigantes - pelo menos tão grandes quanto a órbita da Terra e, obviamente, muito maior que o Sol.
Galileu se envolveu em uma disputa sobre prioridade na descoberta de manchas solares com Christoph Scheiner, um jesuíta. Isso se tornou uma amarga disputa ao longo da vida. Nenhum deles, no entanto, foi o primeiro a reconhecer manchas solares - os chineses já estavam familiarizados com elas há séculos.
Nesta época Galileu também se ocupou de uma disputa sobre os motivos pelos quais os objetos flutuam ou afundam na água, acompanhando Arquimedes contra Aristóteles. O debate não era amigável, e o estilo franco e às vezes sarcástico de Galileu, embora não extraordinário nos debates acadêmicos da época, tornou-os inimigos. Durante essa controvérsia um dos amigos de Galileu, o pintor Cigoli, informou-o que um grupo de opositores maliciosos, que Cigoli posteriormente se referiu de forma ridícula como "a Liga dos Pombos", estava planejando causar-lhe problemas sobre o movimento da Terra, ou qualquer outra coisa que sirva o propósito. De acordo com Cigoli, um dos conspiradores pediu a um sacerdote que denunciasse os pontos de vista de Galileu do púlpito, mas este recusou. No entanto, três anos depois, outro sacerdote, Tommaso Caccini, fez precisamente isso.
No mundo católico antes do conflito de Galileu com a Igreja, a maioria das pessoas cultas admitia a visão geocêntrica aristotélica de que a Terra era o centro do universo e que todos os corpos celestes giravam em torno da Terra, embora as teorias de Copérnico fossem usadas para reformar o calendário em 1582.
O geoestaticismo concordava com uma interpretação literal das Escrituras em vários lugares, como 1Chronicles 16:30, Psalm 93:1, Psalm 96:10, Psalm 104:5, Ecclesiastes 1:5 (mas veja interpretações variadas de Job 26:7). Heliocentrismo, a teoria de que a Terra era um planeta, que junto com todos os outros girava em torno do Sol, contradizia o geocentrismo e a posição teológica predominante da teoria.
Uma das primeiras sugestões de heresia com a qual Galileu teve de lidar ocorreu em 1613 pelo professor de filosofia, poeta e especialista em literatura grega, Cosimo Boscaglia. Em conversação com o patrono de Galileu Cosme II de Médici e sua mãe Cristina de Lorena, Boscaglia disse que as descobertas telescópicas eram válidas, mas que o movimento da Terra era obviamente contrário às Escrituras:
O Dr. Boscaglia falou com Madame [Christina] por um tempo, e embora tenha concedido todas as coisas que você descobriu no céu, ele disse que o movimento da Terra era incrível e não poderia ser, particularmente porque a Sagrada Escritura obviamente era contrária a tal movimento.
Galileu foi defendido no local por seu antigo aluno Benedetto Castelli, então professor de matemática e abade beneditino. A troca foi relatada a Galileu por Castelli, e Galileu decidiu escrever uma carta a Castelli, expondo suas opiniões sobre o que ele considerava a maneira mais adequada de tratar passagens bíblicas que faziam afirmações sobre fenômenos naturais. Mais tarde, em 1615, expandiu esta para a sua mais longa Carta à Grande Duquesa Cristina.
Primeiras reuniões com autoridades teológicas
No final de 1614 ou no início de 1615, um dos colegas dominicanos de Caccini, Niccolò Lorini, adquiriu uma cópia da carta de Galileu a Castelli. Lorini e outros dominicanos no Convento de São Marcos consideraram a carta de ortodoxia duvidosa, em parte porque pode ter violado os decretos do Concílio de Trento: