A Revolta de Lião contra a Convenção foi um dos fatos que marcaram o período do Terror, durante a Revolução Francesa, sendo parte das Revoltas Federalistas, e que fez daquela cidade palco de selvagens castigos e destruição. A Convenção determinou a completa repressão, que ficou sob comando do ex-padre Joseph Fouché e do ex-palhaço Collot d'Herbois, ao passo que os lioneses estavam sob comando de Louis François Perrin de Précy.
Durou de junho a novembro de 1793, podendo ser dividida em 3 partes: a revolta da cidade, a luta e, finalmente, a repressão. Por seu caráter monarquista é considerado um movimento contra-revolucionário.
Para Stefan Zweig foi "uma das mais sangrentas páginas do livro da Revolução Francesa", e "justamente uma daquelas que se fala menos."
O terror causou a revolta de Lyon, a insurreição departamental, a guerra da Vendéia; e, para submeter Lyon, para dissipar a coalizão dos departamentos, para esmagar a Vendéia, foi preciso o terror.Mas, sem o terror, Lyon não se teria insurgido, os departamentos não se teriam reunido, a Vendéia não teria proclamado Luís XVII.
– Benjamin Constant, maio de 1797.
"Minha morte custará caro a esta cidade!
Havia em Lião um ex-padre, fanático revolucionário, chamado Marie Joseph Chalier, leitor doentio das obras de Jean-Jacques Rousseau e que venera como a um deus a Marat, a ponto de lhe decorar os discursos, repetindo-os aos operários lioneses. Quando ocorre a Queda da Bastilha, dela carrega uma das pedras que conduz, a pé e nas mãos limpas, até Lião, numa jornada que dura 6 dias e noites; lá chegando, ergue um altar.
Contra Chalier recai o ódio dos revoltosos de Lião. Logo na primeira sedição da cidade, ele é preso como chefe, embora não passe de um neurótico meio ridículo. Por meio de uma carta forjada, armam-lhe a condenação à morte — uma forma de advertirem os extremistas e de confronto à Convenção.
A Convenção, para salvar seu adepto, envia a Lião vários mensageiros, primeiro prevenindo-a do risco de seus atos, até finalmente ameaçando-a. O Conselho Municipal, contudo, quer demonstrar sua independência — algo que já havia demonstrado quando lhe enviaram uma guilhotina, que jazia enferrujada num depósito: aquela era, pois, uma oportunidade de fazê-la funcionar.
Mas o aparelho mortal, criado para tornar "mais humanas" as execuções capitais, quer pela falta de uso, quer pela inabilidade de seus manejadores, não funciona como devido: por uma, duas, três vezes desce a lâmina sobre o pescoço de Chalier, sem contudo cortá-lo: seu corpo algemado contorce-se, banhado em sangue, até que o carrasco usa um sabre para concluir a decapitação, para horror do povo que a tudo assistia. Este foi o motivo da vingança da Convenção, a causa maior da ordem de destruição daquela cidade que, desrespeitando-a, dera a um seu adepto tratamento tão cruel e infame.
Em Paris a Convenção reage com estrépito à ousadia lionesa: tal insolência deve ser paga com sangue. A cidade, ciosa do que esperar, eclode em franca rebelião: armam tropas, colocam em prontidão suas fortalezas, dispostas a confrontar Paris.
Enfrentavam os revolucionários várias frentes de batalha: a reação das monarquias europeias encetara ataques em frentes diversas; os ingleses haviam tomado Toulon e apreendido o Arsenal e a frota franceses; os prussianos avançavam sobre o Reno e as Ardenas. No plano interno, eclode a revolta da Vendeia. É neste quadro que uma guerra civil surge como a maior ameaça para a jovem república francesa. Apenas um terço do país continua fiel à Convenção.
Lião, apesar de sua formação operária, entrega sua defesa a um general do Rei. Desde agosto, dia e noite, a cidade sofre bombardeios. O general Kellerman, comandante do exército dos Alpes, é enviado e inicia o cerco à cidade, cujos moradores esperava inutilmente um socorro vindo do Piemonte; forçados pela fome a render-se, cerca de 1.500 realistas ainda procuram fugir pela Suíça, mas apenas um décimo deles chegou ao destino. e a 9 de outubro os republicanos tomam de assalto a cidade rebelde, cuja capitulação é aclamada em Paris: os deputados de todos os partidos comemoram, esquecendo suas diferenças pois, com a derrota da segunda maior cidade francesa, e a mais industrializada, salvava-se a República.
A 12 de outubro de 1793 o Presidente da Convenção anuncia solenemente o decreto contra Lião:
Artigo I - Será nomeada pela Convenção Nacional, sob apresentação do Comitê de Salvação Pública, uma comissão extraordinária, composta de cinco membros, para fazer punir, e sem demora, os contra-revolucionários de Lião.
Artigo II - Todos os habitantes de Lião serão desarmados. Suas armas serão imediatamente distribuídas aos defensores da República. Uma parte delas será entregue aos patriotas de Lião, que foram oprimidos pelos ricos e pelos contra-revolucionários.
Artigo III - A cidade de Lião será destruída; tudo que tiver servido de habitação aos ricos será posto abaixo, menos a casa do pobre, e as habitações dos patriotas massacrados ou proscritos, os edifícios especialmente usados pela indústria e os monumentos consagrados à humanidade e à instrução pública.
Artigo IV - O nome de Lião será riscado do número das cidades da República. A reunião das casas conservadas intactas terá doravante o nome de Ville Affranchie.