Roberto Mangabeira Unger (Rio de Janeiro, 24 de março de 1947) é um filósofo e teórico social brasileiro. É professor da Universidade Harvard e por duas vezes foi ministro-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República do Brasil. Sua obra de filosofia, teoria social e direito é citada por intelectuais do porte de Jürgen Habermas e Richard Rorty.
No centro de sua filosofia está a visão de que a humanidade é maior que os contextos nos quais ela é colocada. Ele vê cada indivíduo possuidor da capacidade de ascender a uma vida melhor. Na raiz de seu pensamento social está a convicção de que o mundo é feito e imaginado. Seu trabalho parte da premissa de que nenhum arranjo social, político ou econômico natural é subjacente à atividade individual ou social. Direitos de propriedade, democracia liberal, trabalho assalariado - para Unger, todos são artefatos históricos que não têm relação necessária com os objetivos da atividade humana livre e próspera. Para Unger, o mercado, o estado e a organização social humana não devem ser estabelecidos em arranjos institucionais predeterminados, mas precisam ser deixados abertos à experimentação e revisão de acordo com o que funciona para o projeto de emancipação individual e coletiva. Fazer isso, ele afirma, permitirá a libertação humana.
Unger postula duas concepções-chave: primeiro a infinitude do indivíduo e, em segundo lugar, a singularidade do mundo e a realidade do tempo. A premissa por trás do infinito do indivíduo é que nós existimos dentro dos contextos sociais, mas somos mais do que os papéis que esses contextos podem definir para nós - podemos superá-los. Nos termos de Unger, estamos tanto "ligados ao contexto e transcendendo o contexto", como "o espírito corporificado"; como "o infinito aprisionado dentro do finito". Para Unger, não há estado natural do indivíduo e seu ser social. Pelo contrário, somos infinitos em espírito e desvinculados do que podemos nos tornar. Como tal, nenhuma instituição ou convenção social pode nos conter. Embora as instituições existam e moldem nossos ser e nossas interações, podemos mudar sua estrutura a as extensões que nos aprisionam.
Em 1971, tornou-se um dos mais jovens professores da Universidade Harvard. Segundo Perry Anderson, "como Edward Said ou Salman Rushdie, Mangabeira faz parte daquela constelação de intelectuais do Terceiro Mundo, ativa e eminente no Primeiro Mundo, sem ser assimilada por ele, cujo número e influência estão destinados a crescer". Para Anderson, Mangabeira é "uma mente filosófica do Terceiro Mundo que vira a mesa para se tornar um sintetizador e profeta do Primeiro Mundo".
Paralelamente ao desenvolvimento de seu projeto teórico, Mangabeira tem atuado na política brasileira desde a abertura política durante o regime militar, na década de 1970. Em 2007, após ter sido um crítico do primeiro mandato do presidente Lula, passou a integrar o ministério do governo federal, em outubro de 2007 e permaneceu até junho de 2009 como ministro de Assuntos Estratégicos. Ao ser nomeado por Lula em 2008, antes de assumir a coordenação do Plano Amazônia Sustentável, declarou:
Em 2009, deixou a Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) para retornar às suas atividades em Harvard. Em fevereiro de 2015, foi novamente convidado a chefiar a SAE no segundo mandato da presidente Dilma Rousseff. Em 14 de setembro de 2015 pediu para deixar o cargo, levando o ministério a ser extinto.
Seu avô materno foi o líder baiano Otávio Mangabeira – que exerceu os cargos de governador do seu Estado, senador, chanceler e ministro, tendo sido seu grande exemplo. Através dele, Mangabeira conheceu e ficou fascinado pelo mundo político. Em 1938, perseguido pelo Estado Novo, Octavio Mangabeira partiu com a família para seu segundo exílio, com destino à Europa, fixando-se mais tarde em Nova Iorque, onde trabalhou como tradutor da revista Reader's Digest. Lá, sua filha Edyla conheceu o advogado alemão naturalizado estadunidense Arthur Unger, com quem se casaria e teria os filhos Roberto e Nancy. Roberto Mangabeira Unger é também sobrinho neto do político João Mangabeira e do poeta Francisco Mangabeira, e primo de segundo grau do político Francisco Mangabeira (filho de João).
Roberto nasceu no Rio de Janeiro, em março de 1947, sendo levado aos quatro meses de idade a Nova Iorque, Estados Unidos, onde foi criado e viveu até os onze anos, quando seu pai faleceu em decorrência de um infarto. Por ter sido criado dos quatro meses aos onze anos nos EUA, sem falar português em casa, adquiriu seu característico sotaque carregado. Também, por ter sido educado na infância nos Estados Unidos e, na adolescência, no Brasil, Mangabeira Unger diz ter experimentado o contraste dos sistemas educacionais e das culturas dessas duas sociedades.
Quando criança, passava as férias de verão em Salvador. De volta ao Brasil, cursou o ensino médio no tradicional Colégio Santo Inácio, no Rio de Janeiro. Formou-se em direito, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e continuou seus estudos na Universidade Harvard, onde passou a lecionar no início da década de 1970. Nessa mesma época, em 13 de janeiro de 1971, sua irmã Nancy, ex-militante do PCBR, foi incluída no grupo de prisioneiros políticos libertados e banidos do Brasil, em troca da libertação do embaixador suíço, Giovanni Bucher, que havia sido sequestrado por membros da Vanguarda Popular Revolucionária.
Nos Estados Unidos, Unger percorreu, desde o fim dos anos 1960, notável trajetória acadêmica, alcançando muito jovem a posição de professor titular da Universidade Harvard e, desde meados da década de 1980, a de membro vitalício eleito da Academia de Artes e Ciências dos Estados Unidos, considerada uma das mais prestigiadas instituições daquele país. Em 1991 foi professor daquele que seria o futuro presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.
A amplitude e a profundidade de seus interesses no plano da teoria social contemporânea, assim como o impacto de suas formulações no pensamento jurídico americano, "mudando o currículo de muitas de nossas escolas de direito e a autoimagem de muitos de nossos advogados", segundo Richard Rorty, acompanhada pela erudição que lastreava seus primeiros trabalhos, logo deixavam evidentes - não só nos Estados Unidos, mas também em vários círculos acadêmicos da Europa - que surgia um scholar de extração superior que o tempo só fez confirmar.
Prática filosófica e influências
Filosofia, de acordo com a prática intelectual exemplificada pelo trabalho de Mangabeira, é a mente em luta, insistindo em sua prerrogativa de lidar com o que mais importa, afirmando o primado da visão sobre o método e testando os limites das disciplinas especializadas e dos métodos a que elas estão unidas. É a prática intelectual mais expressiva do homem como espírito encarnado. Como a política, trata de tudo e exige tudo de quem irá praticá-la. Não é, como costumava ser, uma superciência alistada no serviço de autoajuda: uma preparação para a morte. Nem é o que por vezes tem-se agora: a polícia do pensamento que professa o que temos o direito de dizer e acreditar.
Sua autoridade depende da sua fecundidade. Se ela viceja a metanível, discutindo métodos (como o contraste suposto entre o contratualismo kantiano e as abordagens consequencialistas na filosofia moral), mantém-se estéril e vazia, quando ela não se torna um adereço retórico para uma linha que temos independentemente deliberado tomar. Sua autoridade metodológica deve mostrar o seu valor em suas implicações para a reorientação da vida, a reconstrução da sociedade, e a revisão de nossas crenças sobre o mundo manifesto.
O modelo de prática filosófica aqui exposto é o mais próximo daqueles filósofos que, como Aristóteles e Hegel, procuraram formar uma visão de conjunto da realidade, usando e resistindo ao conhecimento especializado de seu tempo. Pode ser lido em muitos aspectos como um pragmatismo radical (radicalizado intelectualmente e politicamente) e, em outros aspectos, como uma tentativa definitiva para desengatar ideias e experiências que se desenvolveram no Ocidente sob a influência do cristianismo das categorias da filosofia grega. Em algumas de suas preocupações (por exemplo, a realidade do tempo), tem afinidades com a filosofia de Henri Bergson. Engaja-se (quase sempre implicitamente) à filosofia de Hegel, repudiando, no entanto, as ideias de uma evolução pré-determinada do espírito e de um lugar definitivo de descanso. Trai a influência do romantismo e do existencialismo como vozes poderosas da luta com o mundo, mas rejeita a ideia romântica e existencialista de que podemos ser plenamente humanos apenas por entrar em guerra - uma guerra que o romântico e o existencialista acreditam que estamos condenados a perder - contra a estrutura, entendida como rotina e a repetição. É, em alguns sentidos, o inverso da filosofia de Schopenhauer, afirmando, como ela, o valor supremo da vida, da realidade e da profundidade de si mesmo sem a abstenção da vontade. Ela se afasta do bater dos tambores de Nietzsche na presença da morte, em relação a este triunfalismo desesperado como um desvio e um mal-entendido sobre quem somos e sobre o que podemos nos tornar.