Por ruptura sino-soviética designa-se a crise nas relações entre a República Popular da China e a União Soviética que começou em finais da década de 1950 e se intensificaria durante a década de 1960.
A principal causa para a ruptura, é a diferença política e ideológica do Partido Comunista da China em relação ao Partido Comunista da União Soviética, respectivamente, o PCCh era Maoísta, uma corrente tridemista que procurava incorporar o Princípio de Subsistência, enquanto o PCUS era Marxista-leninista e procurava alcançar o Comunismo. Essa diferença tem origens desde a Primeira Frente Unida na China e a ascensão de Josef Stalin na União Soviética.
As raízes do conflito entre os comunistas chineses e a União Soviética remontavam à época em que Mao Tse-tung tinha tomado o poder no Partido Comunista Chinês contra as preferências soviéticas. Até esse momento, em 1921, o Partido Comunista Chinês era pequeno e integrava o Partido Nacionalista da China (KMT), além de que detinham apoio do Komintern (Terceira Internacional), a organização financiada por Moscou para promover o comunismo no mundo. Desde 1924, quando o KMT realizou o 1.º Congresso Nacional do Kuomintang, Mao já tinha marcado distâncias com o comunismo soviético, desenvolvendo uma ideologia própria, baseada mais nos camponeses do que nos operários urbanos, além disso, Mao havia sofrido influencia de Sun Yat-sen, líder dos nacionalistas, que detinha o pensamento dos Três Princípios do Povo - Mao descreve com a Nova Democracia uma oposição a ortodoxia ideológica soviética, principalmente no que se diz a revolução e sua metodologia. Na luta pelo poder que teve lugar durante a Grande Marcha, Mao Tse-tung converter-se-ia num líder indiscutível do partido, frente aos dirigentes de formação russa apoiados por Moscou, Bo Gu e Wang Ming. Apesar destas diferenças e da antipatia pessoal entre os dois líderes, Mao e Stalin, a vitória comunista na Guerra Civil Chinesa em 1949 tinha feito necessária a aliança entre os dois regimes por conveniência mútua. A República Popular da China, especialmente depois da Guerra da Coreia, não podia recorrer à ajuda do Ocidente, e a União Soviética era a referência internacional do movimento comunista que, sob Stalin, tinha conseguido converter-se numa das maiores superpotências do mundo. Por sua vez, a União Soviética, no seu papel de líder do movimento comunista, via a subida ao poder de um partido comunista, no país mais populoso do mundo, como um passo de suma importância na expansão do seu sistema político e da sua influência global.
No entanto, as diferentes visões chinesa e soviética da colaboração entre ambos provocariam um conflito crescente. Enquanto que a União Soviética pretendia tratar a China como mais um dos seus satélites, ao estilo dos países da Europa Oriental, os dirigentes da República Popular desejavam um tratamento em condições de igualdade. Não em vão, um dos objetivos da luta comunista na China tinha sido libertar o país da submissão das potências estrangeiras (Japão e EUA).
A ajuda da União Soviética à China foi vista como mesquinha e interesseira por muitos dirigentes chineses, entre eles Mao, a quem Stalin já tinha tratado com desdém na sua primeira visita a Moscou entre o final de 1949 e o início de 1950, que resultou na assinatura de um Tratado de Amizade, Aliança e Assistência Mútua, em 14 de fevereiro de 1950, que continha uma obrigação de assistência recíproca no caso de um conflito com uma terceira potência. Em troca desse tratado a China teve que reconhecer a independência da Mongólia, que já fora parte do Império Chinês, permitir o uso pelos soviéticos do Porto de Dalian e, até 1952, da base naval de Lüshunkou (Port Arthur), além de outras concessões na Manchúria e em Xinjiang. Se bem que o prestígio de Stalin tinha mantido as formas e a necessidade da colaboração com o único aliado natural com o qual podia contar um novo regime comunista, a subida ao poder de Nikita Khrushchov revelaria as profundas discrepâncias entre as duas partes. Além disso, o abandono da ortodoxia ideológica por parte de Khrushchov, que inclusive falava em conseguir uma "convivência pacífica" com o Ocidente capitalista, irritou Mao, para quem a luta contra o capitalismo, até à sua destruição, era um dogma ideológico irrenunciável.
Em 1955, a China se recusou a fazer parte do Pacto de Varsóvia, que foi um pacto de defesa mútua que envolveu a União Soviética e países do Leste Europeu para se contrapor à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).
Em 1957, foi realizada uma conferência de líderes de países socialistas em Moscou, na qual Nikita Khrushchov reafirmou a conclamação para que o bloco socialista lutasse por uma coexistência pacífica com o mundo capitalista. Tal conclamação foi rejeitada por Mao Tsé-Tung, que convocou os outros líderes a não ter medo de armas nucleares e a pegar em armas na luta contra o imperialismo:
Em 1958, Khrushchov propôs a construção de uma estação rádio na China para permitir a comunicação com submarinos soviéticos, além do uso de portos da China pela Marinha Soviética. Em troca a URSS ajudaria a China a construir seus próprios submarinos. A proposta foi considerada um insulto por Mao, que declarou:
Assim, Mao Tsé-tung começava a ver a China como a nova referência real do comunismo no mundo, que deveria abandonar uma União Soviética que traía a causa ideológica. Precisamente este crescente confronto ideológico levaria a União Soviética a cancelar o seu intuito de ajudar a China no seu projeto nuclear. Após a Segunda Crise do Estreito de Taiwan, Khrushchov, temendo um confronto armado com os Estados Unidos da América devido à questão de Taiwan:
suspendeu a cooperação nuclear com Pequim;
em junho de 1959, revogou a promessa de fornecer tecnologia necessária para a construção de uma bomba atômica pela China;
em 1960, ordenou a saída de todos os seus especialistas estabelecidos na China e cancelou os projetos de cooperação técnica.
Em 1962, a ruptura se aprofundou quando a União Soviética, com base no princípio da coexistência pacífica, adotou uma postura de neutralidade em relação à Guerra sino-indiana. Essa posição foi duramente criticada por um editorial publicado no jornal Diário Popular em dezembro de 1962, que observou que aquela seria a primeira vez que um Estado comunista se recusava a ficar ao lado de outro Estado comunista contra um país "burguês":
Além disso, o editorial pedia para que os aliados da China:
Também é digno de nota que a crise dos mísseis soviéticos em Cuba, ainda em 1962, deu oportunidade a Mao Tsé-Tung de atrair comunistas descontentes com a política de coexistência pacífica, acusada de revisionismo.
Em 1964, Mikhail Suslov, membro do Politburo e ideólogo do Partido Comunista da União Soviética, criticou abertamente a conduta chinesa durante o conflito sino-indiano:
Os dirigentes chineses consideravam que os interesses soviéticos não coincidiam em absoluto com os interesses chineses. A República Popular da China, num dos momentos mais difíceis da sua história, os anos de 1960, via-se ainda mais isolada internacionalmente ao não contar nem com o apoio do Ocidente nem com o do bloco soviético. Cuba abandonou logo a política de neutralidade ante o conflito sino-soviético. A Albânia, o pequeno país europeu que tinha abandonado também o modelo soviético, converter-se-ia no seu único aliado ideológico.
Disputas territoriais e confronto armado