Sérgio Ricardo, nome artístico de João Lutfi (Marília, 18 de junho de 1932 – Rio de Janeiro, 23 de julho de 2020), foi um músico, compositor, cineasta e cantor brasileiro, tendo trabalhado também como ator e diretor de cinema. Participou de diversos movimentos culturais como Bossa Nova, Cinema Novo, Canção de Protesto e Festivais de Música Brasileira.
Filho de Abdalla Lutfi e Maria Mansur, tem ascendência síria pelo lado paterno e materno. Seu pai nascera na Síria em 1907 e sua mãe era filha de sírios, mas nascida em Igarapava em 1912.
Aos oito anos, começou a estudar piano no conservatório de sua cidade natal. Aos dezessete anos mudou-se para São Vicente, onde trabalhou como operador de som e discotecário, na Rádio Cultura, e como pianista nas boates Savoi e Recreio Prainha. Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1952 para trabalhar como locutor na Rádio Vera Cruz. Conseguiu um emprego como pianista junto à banda da boate Corsário, na Barra da Tijuca, e com o salário ganho comprou seu primeiro piano. Mais tarde, seu colega Newton Mendonça lhe informou sobre uma vaga de pianista na boate Posto 5, em Copacabana, que abriria com a saída de Tom Jobim, o qual estava indo trabalhar como arranjador na Continental. Sérgio fez um teste e assumiu a vaga, iniciando longos anos de trabalho na noite carioca e assim fazendo amigos como Tom Jobim, João Gilberto e Johnny Alf. Como pianista em uma época em que os músicos profissionais eram muito requisitados, Sérgio trabalhava diariamente nas melhores boates do Rio, São Paulo e Santos.
Ainda como João Lutfi compôs muitas canções para piano, passando a escrever letras e cantá-las, incentivado por Eunice Colbert, dona da boate Chez Colbert, onde ao longo de um ano Sérgio se apresentou. Tornou-se notável como compositor quando a cantora Maysa foi até a boate Dominó para ouvir sua mais recente canção, Buquê de Isabel, pedindo-lhe para gravá-la em seu segundo disco. Dessa fase das boates ficou o registro do primeiro LP, Dançante Nº 1, lançado pela Continental em 1958. Sua primeira gravação como cantor saiu em um disco 78 rotações pela RGE, com uma canção de Geraldo Serafim, Vai Jangada, muito tocada no rádio. Logo em seguida vieram mais duas, Cafezinho e Amor Ruim. Em São Paulo, acompanhando o gaitista Chade em uma apresentação na TV Tupi, Sérgio foi convidado pelo diretor artístico Teófilo de Barros para virar ator da emissora, com a condição de mudar seu nome para Sérgio Ricardo. Embora relutante, ele aceitou o convite e passou a intercalar os trabalhos de ator e pianista na noite. Estrelou como galã no musical Música e Fantasia, atuou em O Direito da Mulher e fez alguns papeis em novelas de rádio e televisão. Seu rosto ficou conhecido na TV Rio, atuando em novelas como Está Escrito no Céu e Mulher de Branco, dirigidas por Carla Civelli, a qual também colocou Sérgio para atuar no Grande Teatro Tupi, encenando peças de autores consagrados como Pedro Anísio. Sérgio também trabalhou na TV Vanguarda (SP) e na TV Continental (RJ), onde foi convidado a apresentar o programa Balada, cujo tema era Bossa Nova.
Em 1958, Miele apresenta Sérgio a João Gilberto na casa de Nara Leão, onde se integra ao movimento musical que estava surgindo. Como integrante da Bossa Nova desde seu surgimento, Sérgio Ricardo foi um dos primeiros a gravar um LP nesse estilo, A Bossa Romântica de Sérgio Ricardo (Odeon), contendo apenas canções próprias. Seu maior sucesso no disco, a canção Zelão, protagonizou a polêmica em torno da falta de engajamento social em grande parte das composições bossanovistas, motivo que levou Sérgio a deixar o movimento.
Em 1961, após ter acumulado experiência em televisão e ter lançado um segundo disco de Bossa Nova, Depois do Amor, Sérgio partiu para rodar seu primeiro curta-metragem, Menino da Calça Branca, que o colocou dentro do movimento conhecido como Cinema Novo, manifesto político/estético que se espalhou pelo mundo. Por este filme, ele recebeu o prêmio Governador do Estado da Guanabara (1963) e o Prêmio Berimbau de Prata (I Festival de Cinema da Bahia). Em 1962, ele foi convidado pelo serviço diplomático brasileiro do Itamaraty, para representar o Brasil nos festivais de cinema de São Francisco (EUA) e Karlovy Vary (Checoslováquia).
Em 21 de novembro de 1962, Sérgio tocou no histórico Festival da Bossa Nova, no Carnegie Hall. Ele ficou em Nova Iorque por 8 meses, procurando um produtor para Menino da Calça Branca e tocando ao vivo em boates como o Village Vanguard, onde revezava o palco com Herbie Mann e Bola Sete. De Nova Iorque, ele foi para a Riviera Francesa, seguindo convite para passar uma temporada de apresentações musicais. De volta ao Brasil, é levado para os estúdios da Philips, por seu produtor Aloysio de Oliveira, para gravar seu terceiro LP, Um Senhor Talento. Ao todo, 12 composições novas, entre elas: Folha de Papel, Esse Mundo é Meu, Enquanto a Tristeza não Vem, Barravento e A Fábrica.
Em 1963, Sérgio compôs a trilha sonora para o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, um dos filmes brasileiros mais importantes de todos os tempos, com letra e direção de Glauber Rocha. A trilha saiu em LP homônimo no ano seguinte, junto com o filme, e Sérgio ganhou o prêmio de melhor trilha para cinema pela Comissão Estadual de Cinema de São Paulo pelo trabalho. Ainda em 1963, seu amigo Chico de Assis o convidou para participar do CPC-UNE (Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes). Lá, ele compõe a trilha sonora para uma peça de Carlos Estevão, atua nos shows habituais e se integra ao movimento, atuando em universidades, favelas e portas de fábricas, usando a música como meio de conscientização.
Em 1964, lançou o filme Esse Mundo é Meu, com atuação do próprio Sérgio em paralelo a Antonio Pitanga, e com montagem de Ruy Guerra. O filme foi considerado como um dos mais importantes do ano pelo crítico Luc Moullet, da revista francesa especializada Cahiers du Cinéma. Novamente o Itamaraty o convidou para representar o Brasil nos festivais de cinema do Líbano e de Gênova. Durante o primeiro, Sérgio foi convidado pelo governo libanês para dirigir o filme O Pássaro da Aldeia, o qual ficou retido pela censura daquele país, porque abordava o tema da emigração. Em 1965, de volta a São Paulo, ganhou o prêmio de melhor filme no festival de Marília e transformou seu filme numa peça de teatro, dirigida por Chico de Assis no Teatro de Arena, onde o cantor e compositor Toquinho foi revelado. Em 1966, de volta ao Rio, compõe sobre piano a trilha de Terra em Transe, outro marco na filmografia de Glauber Rocha, o qual passou a estimular Sérgio a escrever para orquestra.
Em 1967, lançou o disco A Grande Música de Sérgio Ricardo (Philips), contendo composições inéditas e trilhas que fizera para Glauber Rocha, Chico de Assis e Joaquim Cardozo. Este último é autor da peça O Coronel de Macambira, encenada por Amir Haddad no Teatro Universitário Carioca (TUCA), onde se tocou originalmente a canção Bichos da Noite, que aparece no filme Bacurau (Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, 2019).
Entre os Festivais de Música Brasileira, Sérgio ganhou o segundo lugar com “Romana”, no Festival Fluminense. Na TV Record, no III Festival da Canção de 1967, com a canção Beto Bom de Bola ele protagonizou o célebre episódio em que quebrou seu violão e o lançou sobre a plateia, motivado pelo som das vaias que o impedia de executar a canção no palco, sendo eliminado da final após o incidente. O fato é que a bela melodia tinha uma assimilação difícil e fez com que o público preferisse canções mais fáceis como Maria, Carnaval e Cinzas, de Roberto Carlos. Seu grito desesperado Vocês não estão entendendo nada” dá a entender que ele estava tentando apontar para a importância das letras, nas quais se expressava uma sutil e consciente mensagem: Beto Bom de Bola era um jogador de futebol fictício que alcançou a glória vencendo a Copa pelo Brasil em um jogo difícil, mas logo se tornou esquecido, solitário e quebrado. A segunda parte da canção, em que se fala da nostalgia do jogador através de versos terminados em -ura, rimando e chegando ao final da letra, em que se diz que O mal também tem cura, remetem a uma posição crítica contra a ditadura. Outros festivais em que participou incluem a Bienal do Samba, com “Luandaluar”; Festival da TV Excelsior de São Paulo, com “Girassol; Festival Internacional da Canção, com Canto do Amor Armado, no qual ficou entre os dez finalistas; e o IV Festival da Música Popular Brasileira, no qual ganhou o quinto lugar com “Dia da Graça”.