Neste Dia

Saúde

Estado de bem-estar físico, mental e social, na ausência de doenças e enfermidades

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A definição de saúde possui implicações legais, sociais e econômicas dos estados de saúde e doença; sem dúvida, a definição mais difundida é a encontrada no preâmbulo da Constituição da Organização Mundial da Saúde: saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doenças.

Diferentes visões e definições acerca do que se tem de saúde e doença permeiam a história da humanidade, sobretudo a inserção desses conceitos sob os contextos cultural, social, político e econômico. Todo esse conjunto de ideias evidencia uma evolução do pensar humano, uma vez que passa a ser considerado um maior grau de complexidade de interseções desses ideais. Ainda, vale ressaltar que o significado de evolução aqui atribuído está associado a uma visão darwinista do processo. Ou seja, não traduz, necessariamente, um cenário de constantes melhorias ao longo da história.

Desde a antiguidade, a humanidade se empenha de diversas formas para enfrentar determinadas patologias, haja visto que as múmias guardam em si sinais de algumas doenças. No entanto, primordialmente cabia aos termos saúde e doença uma concepção voltada para o campo mágico-religioso, partindo de um pressuposto onde as doenças eram causadas por um mal externo, sendo, portanto, encarado como o pecado ou alguma maldição. Um exemplo disso seria a concepção dos antigos hebreus, que diferentemente de outras religiões da época, acreditavam que a doença não era ação de agentes externos como demônios ou maldições humanas, mas representava, no entanto o sinal da cólera divina para com o seu povo, devido aos pecados da humanidade, como podemos observar em alguns trechos bíblicos, a ressaltar: "Se não me escutardes e não puserdes em prática todos estes mandamentos, se desprezardes as minhas leis (...) porei sobre vós o terror, a tísica e a febre..." (Levítico, 26:16). Mas aqueles que cumprem os preceitos divinos têm outro destino: "Servireis ao Senhor vosso Deus e ele abençoará vosso pão e vossa água e afastará de vosso meio as enfermidades." (Êxodo, 23:25), sobre isso vale ressaltar também, que assim como as doenças eram sinal de castigo divino, Deus também desempenhava o papel de Grande Médico, para esse povo.

Na bíblia ainda há descrições detalhadas de certas enfermidades como a lepra, por exemplo, bem retratada no livro do Levítico, mas no entanto, não havia nenhum sinal para o tratamento dessas enfermidades, primeiro porque como já dito, eram formas de castigo divino e o único meio de tratar essas doenças era através de rituais de purificação, já que se o mal era causado pelo pecado, bastava se livrar do pecado para se livrar do mal, como o caso das mulheres que estavam no seu período menstrual (neste caso em específico elas ficavam alguns dias recolhidas em suas casas e depois de encerrado o período deveriam se purificar) , em casos mais graves, porém, as pessoas eram afastadas da sociedade de alguma forma, como caso dos leprosos. Em segundo lugar, porque na época ainda não se tinha conhecimento científico necessário para o tratamento ou entendimento de certas enfermidades. Essa concepção se estendeu durante muito tempo, sendo comum ainda na Idade Média. É importante dizer que esses preceitos religiosos expressados de forma mais explícita nos cinco primeiros livros da bíblia, possuíam uma finalidade mais evidente de manter uma certa unidade entre os hebreus e os distinguir dos outros povos da região circunvizinha, apesar desses propósitos, podem ter auxiliado na contenção e prevenção de diversas patologias de cunho transmissível, na época, mesmo que isso tenha se dado de forma inconsciente.

Ao se olhar outras culturas, podemos perceber que em diversas tribos que acreditavam que as doenças eram causadas por maus espíritos, cabia ao Xamã local, portanto, os rituais de expulsão desses espíritos malignos, esses rituais também possuíam o objetivo de reunir novamente o microcosmo (o corpo) com o macrocosmo (universo). Em algumas tribos, como é o caso dos índios Sarrumá, localizados na fronteira Venezuela- Brasil, não há o conceito de morte natural, por exemplo, as mortes acidentais ou naturais são causadas por maldições inimigas, ou conduta imprudente.

O xamã nessas sociedades é um indivíduo que passa por extensos treinamentos, repletos de períodos de abstinência, onde ele aprende o seu ofício, sendo introduzido nas canções xamânicas e no conhecimento de ervas utilizadas nos rituais, geralmente em ervas alucinógenas que auxiliam na convocação de novos espíritos capazes de erradicar a doença, essa é a tarefa principal do xamã nesses rituais, convocar espíritos capazes de combater as enfermidades do povo.

Ainda que não a ruptura, a medicina grega representa um importante marco para mudanças ocorridas no jeito de pensar a lógica do processo de doença. Persiste o mitológico, associado a diversas divindades vinculadas à saúde como Asclepius (deusa da medicina); Higeia (saúde) e Panacea (cura), sendo essas duas últimas manifestações de Atena (deusa da razão). O culto a essas figuras mitológicas evidencia a valorização de práticas higiênicas. Além disso, o processo de cura é inicialmente associado à utilização de plantas medicinais e métodos naturais, como por exemplo o ópio como analgésico e antitussígeno (oriundo da Papoula), evidenciando ir além dos cultos e rituais.

A ruptura com essa visão religiosa acerca do processo de saúde ocorre com Hipócrates (460-377 a.C.). Em sua obra denominada “Corpus Hipocraticus”, os textos traduzem uma perspectiva racional a respeito da medicina, bem diferente da concepção mágico-religiosa que até então permeava o pensar do homem. Hipócrates atribui a existência de quatro fluidos (humores) principais no corpo: bile amarela, bile negra, fleuma e sangue. Para ele, a saúde baseava-se, portanto, nesses quatro elementos. O homem enquanto ser humano era uma unidade organizada, logo a doença representava uma desorganização desse estado, unidade. Além disso, a obra revela a inserção de um novo conceito no processo de saúde-enfermidade: epidemiologia. A valorização de uma visão empírica em relação aos casos clínicos descrita nos textos, revela que as observações perpassavam o paciente, sendo o ambiente elemento importante a ser considerado. O texto “Águas, ares, lugares” discute os fatores ambientais atrelados a doença e defende um conceito ecológico do que se tem de saúde.

“A doença chamada sagrada não é, em minha opinião, mais divina ou mais sagrada que qualquer outra doença; tem uma causa natural e sua origem supostamente divina reflete a ignorância humana.”

(A Doença Sagrada – Hipócrates)

Mais a frente, no séc. II, tem-se a figura de Galeno (129-199), responsável por incluir o conceito endógeno nesse processo de saúde-doença. Médico e filósofo, Galeno revisita a teoria humoral de Hipócrates e reforça a importância dos quatro temperamentos no estado de saúde. Para ele, a doença era endógena ao corpo, constituía o homem enquanto matéria física e seus hábitos, portanto, poderiam levar ou não ao desequilíbrio da vida. Intitulado de “pai da Farmácia”, Galeno sistematizou pela primeira vez na história quais as matérias-primas eram necessárias à preparação dos medicamentos e o modo de manipulação como nunca tinha sido visto até então.

Na cultura oriental, o conceito de saúde possui até hoje uma vertente que difere do ocidente, mas que de certa forma é possível estabelecer uma analogia à concepção hipocrática. Em sua essência ela aborda a existência de forças vitais responsáveis por atuar no corpo humano: Ying e Yang. Se harmoniosas, o que se manifesta é saúde; quando não, o que prevalece é a doença. Algumas medidas terapêuticas têm por objetivo restaurar o fluxo normal de energia do corpo quando em desarmonia como a acupuntura, ioga, massagens e uso de ervas medicinais.

Na Idade Média Europeia o conceito de saúde é permeado pela religião cristã e tem como resultado a saúde como fruto da fé e a doença, do pecado. Em contrapartida, os ideais hipocráticos se mantinham, como dosar o comer e beber; realizar a contenção sexual e o controle das paixões. Procurava-se evitar o que chamavam de “contra naturam vivere” – viver contra a natureza –, obedecendo aos princípios religiosos.

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