Santa Helena é um município brasileiro do estado do Paraná. Santa Helena esta a uma altitude de 258 metros e fica no centro da Costa Oeste do Paraná, às margens do lago de Itaipu. Na formação deste lago, a cidade teve tomado um terço de seu território. Foi nesta ocasião que passou a ser conhecida como Terra das Águas.
Sua população, conforme estimativas do IBGE de 2021, era de 27 036 habitantes.
A região sudoeste do estado do Paraná começou a ser ocupada por grupos de caçadores-coletores a alguns milênios atrás. Segundo datação por carbono 14 obtida no sítio Ouro Verde I, localizado no município de Boa Esperança do Iguaçu, os mais antigos indícios da presença ameríndia na região correspondem a 9040 +- 400 anos Antes do Presente. Esses primeiros habitantes da área compreendida pelos rios Paraná e Iguaçu provavelmente viviam em um clima mais seco e frio do que o atual, quando uma vegetação típica de campos se sobrepunha às florestas subtropicais de períodos mais recentes. Produziam diversos tipos de ferramentas de pedra, tais como raspadores, percutores e pontas de projétil geralmente associados à Tradição Umbu. Quando o clima se tornou mais quente e os ambientes de floresta tornaram-se mais comuns em todo o atual oeste do Paraná, novas ferramentas foram produzidas pelos grupos que habitavam essa região, sendo estas tradicionalmente atribuídas à Tradição Humaitá. Apesar desses primeiros habitantes da região certamente produzirem artefatos em ossos de animais, couro, fibras vegetais e madeira, a rápida decomposição desses materiais faz com que raramente sejam encontrados em sítios arqueológicos.
Em Santa Helena, vestígios dessas primeiras ocupações humanas no vale do rio Paraná foram encontrados em pelo menos 9 sítios arqueológicos. São eles: Brejo Seco, Córrego Caminho Verde 1, Córrego Caminho Verde 2, Córrego Caminho Verde 3, Córrego Lajeado 2, São Francisco Falso 3, São Francisco Falso 4, São Francisco Falso 5 e Corredeira.
Entre 4.000 e 2.500 anos atrás, teve início a migração de grupos indígenas ceramistas para o atual sudoeste do Paraná. Vindos do Planalto Central, esses ancestrais dos povos Kaingang e Xokleng gradualmente assimilaram (ou expulsaram) as populações que habitavam a região, introduzindo a cerâmica e o cultivo do milho e da mandioca. As aldeias eram normalmente compostas por casas subterrâneas, estruturas provavelmente construídas para enfrentar o clima frio dos vales e campos do Brasil Meridional, além de montículos feitos em terra para sepultamento dos mortos. Também é atribuído à essas populações o manejo de diversas espécies de palmeiras e pinheiros, incluindo a araucária, sendo o pinhão um alimento importante na dieta dessas populações. Em Santa Helena, remanescentes materiais relacionados a esses grupos foram identificados nos sítios Córrego Lageado 1, Rio São Vicente Chico e Santa Helena.
Pelo vale do Paraná e seus afluentes também se expandiram os ancestrais dos atuais Guarani e demais povos falantes do tronco linguístico tupi-guarani, deixando diversos vestígios de sua presença no que posteriormente veio a ser o município de Santa Helena. Ocorrida a cerca de 2.000 anos atrás, a migração desses grupos sobre territórios até então ocupados por povos Jê certamente ocasionou diversos conflitos. Em Santa Helena, pelo menos 18 sítios arqueológicos contam com artefatos associados à Tradição Tupiguarani, o que sugere que a região foi intensamente habitada por Guaranis e outros grupos indígenas aparentados.Por sua vez, as datações radiocarbônicas obtidas nos sítios Lagoa Seca (1625 +- 60 AP), São Francisco Falso 1 (700 +- 55 AP) e Cafezal 2 (590 +- 55 AP), todos localizados em Santa Helena, confirmam a presença dessas populações nessa parte do vale do rio Paraná até praticamente a chegada dos europeus na América do Sul.
Colonização Europeia (séculos XVI-XIX)
As fontes escritas produzidas pelos espanhóis ao longo dos séculos XVI e XVII, período em que estes ocuparam o norte e oeste do Paraná, de fato atestam a presença considerável de ameríndios relacionados aos grupos Jê e Tupi-Guarani. É o caso da expedição de Álvar Núñez Cabeza de Vaca, que atravessou boa parte desse território ainda na primeira metade do século XVI. Segundo o relato produzido por esse explorador castelhano, toda a área próxima a foz do rio Iguaçu era ocupada por aldeias Guaranis, os quais provavelmente já tinham tido algum contato com expedições portuguesas entre as décadas de 1520 e 1530. Dentre as diversas populações chamadas genericamente de Guaranis pelos colonizadores, há relatos da presença de grupos como os Mimos, Chiques, Cheripas e Chiringuanás na região do atual município de Santa Helena.
A partir da segunda metade do século XVI, contudo, o contato crescente com colonizadores portugueses e espanhóis acabou por desestruturar as sociedades indígenas que habitavam as margens do rio Paraná. Doenças como gripe e varíola, até então inexistentes no continente americano, assim como as guerras e expedições militares europeias com o objetivo de conquistar territórios e capturar indígenas, diminuíram drasticamente as populações Guaranis. Segundo consta, um dos resultados desse processo foi a reocupação de parte desses territórios por populações Kaingang e Xokleng a partir do século XVII, já que o sudoeste paranaense não foi ocupado de forma permanente pelas Coroas de Portugal e Espanha durante todo o período colonial.
No século XIX, por sua vez, há registro da presença esparsa de argentinos e paraguaios na margem oeste do rio Paraná, quase sempre envolvidos com a extração de madeira e erva-mate. Além disso, embora não existissem centros urbanos, pequenos sítios e ranchos eram habitados por famílias de origem mestiça, fruto da interação de séculos entre europeus e ameríndios no sudoeste do Paraná. Esses ranchos frequentemente se localizavam nas proximidades de caminhos e rios utilizados no escoamento da madeira e erva-mate, sendo voltados tanto para a agricultura de subsistência quanto para eventuais trocas e vendas com viajantes. Vestígios dessa discreta ocupação das terras entre os rios Paraná e Iguaçu foram identificados no sítio Uru, em Santa Helena, na forma de cerâmicas que uniam técnicas de produção indígena e europeia.
Fundação de Santa Helena (séculos XIX-XX)
Assim, a partir de meados do século XIX, a colonização do sul e oeste do Paraná foi baseada na exploração da madeira e da erva-mate. Esse trabalho era realizado principalmente por estrangeiros oriundos da Argentina e Paraguai, denominados de peão ou mensus, termo que remete a forma como era realizado o pagamento (mensal) por seu trabalho. Essa forma de exploração era chamada de "obrages" . Apoiando-se na ausência virtual de controles fronteiriços e de núcleos habitacionais significativos, as “obrages” eram baseadas numa intensa exploração desses trabalhadores. Dentre os vários empresários donos de “obrages”, ganhou destaque a figura de Domingos Barthe, imigrante francês radicado na Argentina desde a década de 1860.
Segundo consta, no atual município de Santa Helena se localizava a sede dos empreendimentos de Barthe em terras brasileiras, sendo nomeada justamente “Central Barthe”. Conectada por caminhos e trilhas aos diversos pontos de exploração madeireira e ervateira, a Central Barthe também operava portos na margem esquerda do rio Paraná, a partir dos quais eram exportadas as cargas. Fundado em 1858, esse porto teria sido batizado de Santa Helena devido à devoção de Domingos Barthe por essa santa. O contexto econômico aproveitado pelos donos de “obrages” só passaria por alterações significativas a partir da criação de colônias militares brasileiras às margens do rio Paraná e Iguaçu, durante os últimos anos do século XIX e primeiras décadas do XX. De acordo com algumas fontes, o porto e a “Central Barthes” se mantiveram em funcionamento até a década de 1930.
Com o declínio progressivo da exploração da erva-mate ao longo da primeira metade do século XX, diversos problemas econômicos se abateram sobre as “obrages” enquanto modelo de negócio. Para além desses problemas econômicos e administrativos das “obrages”, a desestruturação das operações da empresa de Domingos Barthe também foi impulsionada pela passagem da Coluna Prestes pelo oeste paranaense, entre os anos de 1924 e 1925. Um dos episódios que simbolizam a tensão entre os tenentistas e os capatazes e administradores de “obrages” foi a destruição de uma ponte, localizada sobre o rio São Francisco Falso, a qual havia sido construída pela empresa de Domingos Barthe.