A Segunda Coligação (português europeu) ou Segunda Coalizão (português brasileiro) foi um conjunto de alianças e compromissos estabelecidos entre várias potências europeias (incluindo o Império Otomano) que se confrontaram com a França na fase final da Revolução Francesa. O conjunto dos confrontos entre a França e a coligação ficou conhecido como Guerra da Segunda Coligação, teve início em 1799 e prolongou-se até 1801. Formalmente, a guerra só terminou em 1802 com a assinatura do Tratado de Amiens. Contra a França uniram-se a Áustria, a Rússia, a Grã-Bretanha, o Império Otomano, o Reino de Nápoles e outras pequenas entidades políticas da península Itálica e da região da Germânica, estas últimas integradas no Sacro Império Romano-Germânico. A invasão de Portugal por um exército espanhol, em 1801, no conflito que ficou conhecido como Guerra das Laranjas, está também associada a estes acontecimentos e trata-se de uma campanha que não pode deixar de ser referida no âmbito da Guerra da Segunda Coligação.
Esta guerra, iniciada quando a França era governada pelo Diretório, terminou quando Napoleão Bonaparte era já Primeiro Cônsul. Assim, foi durante esta guerra que se realizou a transição da França Revolucionária para a França Napoleónica. As operações relativas a esta guerra decorreram em três teatros de operações: Europa Central e Países Baixos e norte da Península Itálica. Foi neste último teatro de operações que se realizou a Segunda Campanha de Napoleão em Itália. Quando se iniciou a Guerra da Segunda Coligação, tanto os Estados Papais como o Reino de Nápoles estavam já em guerra com a França por causa da expansão desta República para sul, na península italiana. O Império Otomano encontrava-se em confronto com os franceses desde setembro de 1798, após o início da Campanha do Egito.
Consequências do Tratado de Campoformio
O Tratado de Campoformio, que pôs um fim formal à Guerra da Primeira Coligação, alterou o mapa político europeu. No norte de Itália, a França tinha obtido, do Reino da Sardenha, o Ducado de Saboia e o Condado de Nice pelo Tratado de Paris de 1796. Por este tratado, os franceses obtinham o direito de atravessar os territórios do Piemonte em direção ao Ducado de Milão que se encontrava sob domínio austríaco. Em compensação pela perda da Bélgica, a Áustria recebeu o território da República de Veneza, incluindo as suas possessões na Ístria e na Dalmácia. Dos territórios de Veneza, a França reteve as Ilhas Jónicas como bases navais. No final da sua primeira campanha em Itália, Napoleão reuniu na República Cisalpina os territórios que os franceses tinham dominado durante a guerra. À República de Génova foi imposto um governo de acordo com os interesses franceses e esta passou a designar-se República da Ligúria. O Ducado de Parma manteve a sua entidade política, embora sob controlo dos franceses. A República de Lucca e o Grão-Ducado da Toscana mantiveram a sua independência. Os Estados Papais perderam para a República Cisalpina alguns territórios: Romanha, Bolonha e Ferrara.
Francisco I da Áustria cedeu os Países Baixos Austríacos (Bélgica) à França e, na qualidade de imperador do Sacro Império Romano-Germânico (como Francisco II) cedeu os territórios alemães da margem esquerda do rio Reno. A França atingia, assim, as chamadas fronteiras naturais, isto é, avançou as fronteiras até aos limites geográficos materializados pelo rio Reno, pelos Alpes e pelos Pirenéus. A França prometeu à Áustria que usaria a sua influência para ajudar o imperador Francisco II a obter Salzburgo e parte da Baviera. A República Batava (Holanda) tinha sido criada pelos patriotas holandeses, com o apoio das forças francesas invasoras, em 16 de maio de 1795 e, desde essa data, manteve-se um Estado satélite da França.
Em setembro de 1791, os franceses tinham anexado Avinhão e o Condado Venaissino, territórios pontifícios. Esta facto agravou as relações entre a França revolucionária e a Santa Sé. As conquistas francesas durante a guerra foram mantidas sob a forma daquelas repúblicas irmãs, que mais não eram que Estados satélites de França. Após a assinatura do Tratado de Campoformio era suposto manter o status quo, mas os franceses iniciaram um período de expansão na Itália. Em 1796, Bolonha e Ferrara, a norte dos Estados Pontifícios, foram colocadas sob controlo da República Cisalpina. Em dezembro de 1797, em Roma, registaram-se algumas manifestações durante as quais foi assassinado o general francês Léonard Mathurin Duphot, que para ali se tinha dirigido com o embaixador francês José Bonaparte, a fim de tentarem incitar e apoiar uma revolta republicana. Este incidente foi o pretexto para os franceses enviarem o seu Exército de Itália, sob o comando do general Louis-Alexandre Berthier. Os Estados Pontifícios foram ocupados, as tropas francesas foram aclamadas como libertadoras pelos democratas romanos e, a 12 de fevereiro de 1798, foi estabelecida a República Romana. O papa Pio VI foi feito prisioneiro, enviado para Siena e daí para Valença, onde morreu no ano seguinte. Em 1798, Maria Carolina da Áustria influenciou o seu marido, o rei Fernando IV de Nápoles, a invadir a República Romana. As tropas napolitanas ocuparam Roma mas os franceses contra-atacaram e, no dia 20 de janeiro de 1799, o general Jean Étienne Championnet atacou Nápoles. No dia 23 de janeiro foi proclamada a República Napolitana, que os franceses foram obrigados a abandonar a meio desse mesmo ano de 1799.
Em abril de 1798, os franceses ocuparam a Suíça, onde a Revolução Francesa teve uma forte repercussão. Uma série de revoltas registaram-se em diversos cantões da Suíça. Durante esse conflito interno, o político suíço Frederico César de La Harpe propôs a intervenção de tropas francesas com a finalidade de impor os princípios revolucionários em todos os cantões. No início do ano de 1798, as tropas francesas entraram no cantão de Vaud, que tinha proclamado a independência e, a partir daí, foi feita a ocupação de toda a Suíça. Estes acontecimentos conduziram à proclamação da República Helvética a 12 de abril de 1798, organizada segundo o modelo francês. No dia 19 de agosto de 1798, a República Helvética e a República Francesa assinaram um tratado de defesa mútua. A França, entretanto, tinha anexado os cantões de Genebra, Neuchâtel, Berna e o território do bispo de Basileia, atual Jura.
Em maio de 1798, partiu de Toulon uma frota com o Exército do Oriente, sob comando de Napoleão Bonaparte. Tinha início a Campanha do Egito. A ilha de Malta foi ocupada a 10 de junho de 1798 e, no dia 1 de julho, o exército francês iniciou o desembarque perto de Alexandria, na costa mediterrânica do Egito. Estas ações tiveram duas consequências. No que respeita a Malta, os Cavaleiros Hospitalários expulsos da ilha pediram auxílio a Paulo I da Rússia e elegeram-no grão-mestre da ordem, sem que disso fosse impedimento o facto de ele pertencer à Igreja Ortodoxa. Sendo a Rússia uma potência com fortes interesses no Império Otomano, via também com grande alarme a presença de forças francesas no Egito. Para a Rússia, era importante travar este expansionismo francês. A outra consequência foi a declaração de guerra do Império Otomano à França, a 2 de setembro de 1798. No início do ano de 1799, Napoleão avançou pela Síria otomana e pôs cerco a Acre. A expedição na Síria terminou em julho desse mesmo ano e, em setembro, Napoleão e alguns dos seus colaboradores abandonaram o Egito e dirigiram-se para França. A justificação para esta atitude que lhe poderia ter custado a carreira foi a situação difícil em que se encontrava a França na guerra que se travava contra as potências da Segunda Coligação.
Quando Napoleão partiu para o Egito, em maio de 1798, a posição da França parecia segura. A República Francesa tinha as suas fronteiras delimitadas pelos seus limites naturais, o rio Reno, os Alpes e os Pirenéus. Em 1795 tinha sido formada a República Batava, assim as fronteiras francesas eram fortalecidas por um estado satélite. No norte de Itália, a anexação de Nice e a criação de outro estado satélite, a República da Ligúria, tinham permitido aos franceses controlar a rota costeira para a Itália. Pela República da Ligúria, os franceses tinham acesso à República Cisalpina, outro estado satélite, que dominava o vale do Pó. A influência austríaca estava limitada ao território a norte do rio Ádige. O caminho estava aberto para “libertar” a Itália Central e do Sul.