Slobodan Milošević (em sérvio: Слободан Милошевић, pronunciação sérvia: [sloˈbodan miˈloʃevitɕ] (); Požarevac, 20 de agosto de 1941 – Haia, 11 de março de 2006) foi presidente da Sérvia de 1989 a 1997 e da República Federal da Jugoslávia de 1997 a 2000. Também foi o principal líder do Partido Socialista da Sérvia desde a sua fundação, em 1990.
O período em que Slobodan ficou no poder na Sérvia e na República Federal da Iugoslávia foi marcado por mudanças importantes nestes países, incluindo reformas constitucionais na Sérvia nas décadas de 1980 e 90 que reduziram a autonomia dos territórios sob controle sérvio e transformou o país de uma república unipartidarista comunista para um sistema pluripartidário. Ele acabou então presidindo sobre a desintegração da Iugoslávia e a subsequente guerra civil que assolou a região. Fundou a República Federal da Iugoslávia em 1992 (formada basicamente por Sérvia e Montenegro) e negociou os Acordo de Dayton, que encerrou a brutal Guerra da Bósnia em 1995. Ele permaneceu como o homem-forte da Sérvia até o ano 2000, quando foi oficialmente derrubado do poder.
Logo depois da intervenção militar da OTAN na Iugoslávia em 1999, Milošević passou a ser acusado pelo Tribunal Penal Internacional para a antiga Iugoslávia por crimes de guerra e contra a humanidade, que incluíam acusações de genocídio, perpetrados por tropas e milícias sob seu comando na Bósnia, Croácia e Kosovo.
Milošević renunciou à presidência iugoslava entre manifestações que se seguiram à concorrida eleição presidencial de 24 de setembro de 2000. Foi preso pelas autoridades federais iugoslavas em 31 de março do ano seguinte, sob suspeita de corrupção, abuso de poder e apropriação indébita. Foi também preso pelo Tribunal Penal Internacional para a antiga Iugoslávia (TPII), um comitê das Nações Unidas, sob a acusação de crimes contra a humanidade, de violar as leis e costumes de guerra, violações graves às Convenções de Genebra e genocídio, por seu papel durante as guerras na Croácia, Bósnia e Herzegovina e Kosovo. A investigação inicial a respeito de Milošević não foi adiante, por falta de evidências concretas. Por isso, o primeiro-ministro sérvio, Zoran Đinđić, enviou-o a Haia, Países Baixos, sede do Tribunal Penal Internacional, para ser julgado por crimes de guerra.
Milošević foi responsável por sua própria defesa; o julgamento terminou, no entanto, sem qualquer veredito, já que ele acabou morrendo durante o seu decorrer, depois de quase cinco anos encarcerado na Prisão de Criminosos de Guerra, em Haia. Milošević sofria de doenças cardíacas e tinha hipertensão arterial, e morreu em decorrência de um enfarte do miocárdio. O Tribunal negou qualquer responsabilidade sobre a morte de Milošević, alegando que ele se recusara a tomar os medicamentos que lhe foram receitados, e preferiu medicar-se por conta própria.
O legado de Slobodan Milošević na região da antiga Iugoslávia é controverso. Muitos sérvios o saúdam como um nacionalista que lutou por seu país contra as potências estrangeiras da OTAN. Outros o pintam como uma figura autoritária, um criminoso de guerra que levou os povos da sua nação a uma série de cruéis e árduas guerras civis, marcadas por abusos e genocídio. Internamente, observadores descreveram o comportamento político de Milošević como populista, eclético e oportunista. O governo de Milošević foi descrito como autoritário ou autocrático, bem como cleptocrático, com acusações de fraude eleitoral, assassinatos, supressão da liberdade de imprensa e brutalidade policial.
Antes de sua atividade política
Slobodan Milošević nasceu em Pozarevac (Sérvia) em 1941 no seio de uma família abastada, quatro meses depois da invasão do Eixo do Reino da Iugoslávia, e foi criado durante a ocupação do Eixo na Segunda Guerra Mundial. Tinha um irmão mais velho Borislav Milošević que mais tarde se tornaria um diplomata. Seus pais se separaram na sequência da guerra. Seu pai, um sacerdote ortodoxo sérvio Svetozar Milošević, atirou em si mesmo, em 1962. O pai de Svetozar Simeun foi um oficial do exército montenegrino. A mãe de Milošević, Stanislava (née Koljenšić), foi professora e também membro ativo do Partido Comunista, cometeu suicídio em 1972. seu irmão (tio de Milošević) Milisav Koljenšić foi um major-general no Exército Popular Iugoslavo que também cometeu suicídio, em 1963.
Em 1953, afiliou-se à Liga dos Comunistas da Iugoslávia, o nome em que ficou conhecido o Partido Comunista da Iugoslávia a partir de 1952. Estudou direito na Universidade de Belgrado. Enquanto na universidade, fez amizade com Ivan Stambolić, cujo tio Petar Stambolić tinha sido presidente de Conselho Executivo sérvio (o equivalente comunista de um primeiro-ministro). Isso provou ser uma conexão crucial para as perspectivas de carreira de Milošević uma vez que Stambolić patrocinou sua ascensão na hierarquia da Liga dos Comunistas da Iugoslávia.
Após sua graduação, em 1966, Milošević tornou-se um assessor econômico do prefeito de Belgrado Branko Pešić. Cinco anos depois, se casou com sua amiga de infância, Mirjana (Mira) Markovic, com quem teve dois filhos: Marko Milošević e Marija Milošević. Marković teria alguma influência na carreira política de Milošević antes e depois de sua ascensão ao poder; ela ocupava o cargo de professora de Teoria Marxista na Universidade de Belgrado e também foi líder da coalizão parceira do marido, Esquerda Iugoslava (JUL) na década de 1990.
Em 1968, passou para o mundo empresarial, onde ocupou diversos cargos em empresas de autogestão, características do sistema econômico de autogestão das empresas socialistas iugoslavas. Começou a trabalhar na companhia energética estatal (Technogas), da qual foi nomeado diretor-geral em 1973. Dez anos depois de haver deixado a administração municipal, em 1978, ascendeu para a direção do maior banco iugoslavo – o Beogradska Banka (Banco de Belgrado).
Os primórdios e sua ascensão à presidência da Sérvia
Com a morte de Josip Broz Tito (1980), Milošević começou a entrar paulatinamente na política. Apesar de Slobodan Milošević aparecer como um homem introvertido, orador medíocre e sem carisma, em 1983 é eleito para o Presidium do Comitê Central do Partido Comunista da Sérvia e no ano seguinte fez-se Presidente do Comitê Municipal do partido, em Belgrado.
Sua habilidade na unidade (se não na criação e crescimento de si mesmo) dos mais profundos sentimentos do público da Sérvia, faz Milošević varrer toda a classe política sérvia acusando-a de inércia e inépcia. Em 15 de maio de 1986, substitui Ivan Stambolic na Presidência do Comitê Central do Partido Comunista da Sérvia, e é reeleito em 1988. Em maio de 1989, é eleito presidente da república iugoslava da Sérvia. Este rápido percurso, que, em sete anos, levou-o de mero técnico da administração a Presidente da Sérvia surpreendeu a todos. Milošević possuía um perfil de burocrata. Em 1988, agrava a tensão dentro das fronteiras da Sérvia (Kosovo), e entre a Sérvia e outras repúblicas, principalmente a Eslovênia. Embora Milošević fosse um defensor de um modelo centralista (em termos de instituições de política econômica), cuja liderança seria para a Sérvia, a maior república da Federação, Ljubljana (com o presidente Milan Kučan) apoiavam o direito à autodeterminação das repúblicas e o respeito a todos os grupos étnicos minoritários e a autonomia.
Milošević compreende desfrutar de um enorme apoio popular: os sérvios vê-lo dirigindo uma nação orgulhosa, um líder carismático. Tem o apoio da Igreja Ortodoxa Sérvia. Sua rápida ascensão política coincidiu com a radicalização do nacionalismo, que teve lugar na sociedade sérvia, no momento em que o comunismo soviético perdia força: no mesmo ano de 1989 decidiu transformar o Partido Comunista em Partido Socialista da Sérvia. Sob sua direção, teve início uma afirmação institucional da identidade sérvia, em detrimento das demais populações minoritárias. Em 28 de junho de 1989, em plena efervescência nacionalista, Milošević se apresentou em Kosovo Polje, a cena da Batalha do Kosovo, o 600 º aniversário da derrota contra os turcos, onde, perante uma multidão de um milhão de sérvios, pronunciou o famoso discurso de Gazimestan, uma celebração do nacionalismo sérvio que trouxe sérias consequências.