Stuart Hall (Kingston, 3 de fevereiro de 1932 — Londres, 10 de fevereiro de 2014) foi um teórico cultural e sociólogo britânico-jamaicano que viveu e atuou no Reino Unido a partir de 1951. Hall, juntamente com Richard Hoggart e Raymond Williams, foram os fundadoras da escola de pensamento que hoje é conhecida como os Estudos Culturais Britânicos, também chamada de Escola de Estudos Culturais de Birmingham. Também foi presidente da Associação Britânica de Sociologia entre 1995 e 1997.
Na década de 1950, Hall foi um dos fundadores da influente revista New Left Review. A convite de Hoggart, Hall entrou para o Centro de Estudos de Cultura Contemporânea da Universidade de Birmingham em 1964. Hall assumiu a direção desse centro em 1968 e lá permaneceu até 1979. Stuart Hall é reconhecido por expandir o escopo dos estudos culturais para lidar com raça e gênero, além de ajudar a incorporar novas ideias derivadas do trabalho de teóricos franceses.
Hall deixou o centro em 1979 para se tornar um professor de sociologia na Open University da qual se aposenta em 1997, tornando-se Professor Emérito. O jornal britânico The Observer o chamou de "um dos principais teóricos culturais do país". Ele foi casado com Catherine Hall, militante feminista e professora de história britânica moderna na University College London.
Nascido em 1932 em Kingston, capital da Jamaica, em uma família negra de classe média cujo pai, Herman Hall, foi o primeiro não branco do país a ocupar uma posição de chefia (chefe de contabilidade) na United Fruit Company, e cuja mãe, Jessie, tinha antepassados brancos. Ela era descendente de escoceses, de escravos africanos e de judeus portugueses. Hall recebeu uma educação inglesa clássica no Jamaica College, uma destacada escola secundária masculina de Kingston, enquanto se aliava à luta contra o Colonialismo e pela independência da Jamaica.
Com o aumento da tensão racial e política no país, ao ganhar uma bolsa de estudos Rhodes para estudar na Universidade de Oxford, Hall mudou-se para a Inglaterra em 1951. Parte da larga escala de migração caribenha havia começado três anos antes, com a chegada do Empire Windrush. Ele ainda lembra que, quando pegou o trem de Bristol para a estação Paddington em Londres, viu a paisagem familiar das novelas de Thomas Hardy.
Entretanto, se a Grã-Bretanha era uma cultura que ele conhecia da literatura, não era uma cultura da qual ele se sentia parte, sempre se imaginando como um “familiar estranho”. Em Merton College, estudando inglês, experimentou esse sentimento de estrangeiro. Seu entusiasmo – por uma nova política, por um mundo sensível aos valores das diferenças humanas – era incompreensível aos olhares dos estudantes ingleses que o cercavam. Meio século mais tarde diria ao jornal The Guardian: “Não sou inglês e nunca serei. Vivi uma vida de deslocamento parcial”.
Conforme os anos se passaram, sua relação com a cultura negra se endossou. Ambivalente em relação ao lugar que onde vinha e ao lugar de onde estava, ele tentou sobreviver à escuridão medieval de Oxford ao abraçar a causa da exclusão das minorias migrantes da cidade. A sensação de deslocamento no novo ambiente fez com que o recém-chegado mergulhasse nas comunidades de migrantes que cresciam no pós-guerra e nos debates sobre o futuro da esquerda. Dessa ligação e do cenário político de 1956 – marcado pela invasão do Egito por Israel e pela repressão da União Soviética sobre a revolução húngara – surgiu uma nova esquerda, na qual Hall era uma figura influente. Nesse momento ele se viu “preso ao marxismo contra os tanques em Budapeste”.
Em 1957, os problemas marcantes de sua época contribuíram ao lançamento da revista Universities and Left Review, na qual Hall tinha papel fundamental. A revista se fundiria com a New Reasoner, formando a New Left Review, em 1960. Hall foi editor e um dos fundadores da publicação, juntamente com E. P. Thompson e Raymond Williams, tornando-se voz influente nos principais debates políticos da segunda metade do século XX. Ao abandonar sua tese em Henry James, Hall mudou-se para Londres. Durante o dia trabalhava como professor substituto em Brixton e, à noite, na revista NLR, localizada no Soho.
Em 1961, tornou-se palestrante em Film and Media no Chelsea College, London University. Enquanto Brixton e Soho se mostravam simpáticos a ele, Oxford não, influenciando o autor a trabalhar em cultura popular. O recém-criado Centro para Estudos Culturais Contemporâneos da Universidade de Birmingham serviria de base para uma série de questões que Stuart Hall, primeiro pesquisador a ser convidado a integrá-lo, desenvolveria.
Na Campanha Contra o Desarmamento Nuclear, em 1963, Hall conheceu Catherine Barrett, que se casaria com ele no ano seguinte. Com a sua indicação para o CCCS, eles voltaram para Birmingham, onde tiveram seus dois filhos, Becky e Jess, e onde viveram até 1979. Durante esse tempo, Catherine se tornou uma historiadora aclamada, e o casamento comprovou ser uma fonte de amor e suporte mútuo. Para diversos amigos, sua casa em Birmingham e posteriormente em Londres era um local agradável a todos.
Em 1972, ele se tornaria diretor do departamento. Lá, ajudou a moldar um campo de pesquisas emergente, que procurava construir uma abordagem interdisciplinar da cultura, mesclando áreas como sociologia, antropologia, filosofia, crítica literária, linguística e teoria política. Para Hall, a cultura, mais do que um conjunto de referências estéticas ou históricas de determinado grupo humano, era “ponto crítico de ação e intervenção social, no qual relações de poder são estabelecidas e potencialmente desestabilizadas".
Ainda em Birmingham, sobre a liderança de Hall, os estudos culturais ascenderam no mundo acadêmico. Porém, como ressalta Hoggart, Hall raramente usava a primeira pessoa do singular, preferindo falar em nome de todos os colaboradores do trabalho. Sua energia era prodigiosa e ele debatia sobre os media, raça, política, marxismo e a teoria crítica. Apesar de não haver monografias oficialmente reconhecidas em seu nome, Hall produzia uma grande variedade de livros e artigos sobre jornalismo, assim como sobre discurso político, influência da rádio e da televisão.
Em 1979 tornou-se professor de sociologia na Open University, onde permaneceria até 1998, ano em que se tornaria professor emérito, lançando uma série de cursos em comunicação e sociologia. Gradativamente, ele passou a focar em questões sobre raça e o pós-colonialismo, sempre utilizando a sua experiência profissional como estrangeiro.
Sua saída do cargo de professor de sociologia na Open University coincidiu com a vitória de Margaret Tatcher nas eleições. Antes do evento, Hall, convencido de que a emergência do conservadorismo faria uma profunda mudança na história da política da Grã-Bretanha, estabeleceu o termo thatcherismo, em um artigo visionário publicado na Marxism Today, a revista do Partido Comunista da Grã-Bretanha. Em confluência com a teoria de Antonio Gramsci sobre as formas de hegemonia política, Hall enfatizou o papel da raça na política do então partido eleito, numa relação na qual a crença na ordem e no direito caracterizaria o chamado “populismo autoritário” em volume publicado pelo CECC denominado Policing the Crisis (1978).
Em The Politics of Thatcherism (1983), insistiu na ideia de que o estatismo tradicional da esquerda era, em parte, responsável por criar condições que possibilitaram a vitória de Margaret Thatcher, apontando o fato de que o thatcherismo havia se enraizado no sentimento popular. Ele tinha convicção que o Thatcherismo definiria aquilo que era politicamente possível, mesmo após a saída de Thatcher, fornecendo elementos para entender a política do New Labour e da coalizão subsequente.
Hall, que era um ativista na questão de justiça racial, foi convidado a integrar diversos órgãos públicos. No período de 1997 a 2000, serviu na Comissão Runnymede sobre o futuro multiétnico da Grã-Bretanha, e ficou surpreso com a reação midiática sobre a observação da comissão em que a ideia de a Grã-Bretanha não ser inocente, reconhecendo que havia um conflito de raça entre os britânicos.