Neste Dia

Ticunas

Povo indígena Ticuna

Anúncio

O povo Magüta (Tikuna ou Pogüta) é uma população ameríndigena que habita atualmente a fronteira entre o Peru, Brasil e o Trapézio amazônico na Colômbia. Formam uma sociedade de mais de 72 553 indivíduos, divididos entre Brasil (57 571), Colômbia (8 000) e Peru (6 982), sendo o mais numeroso povo indígena da Amazônia brasileira. A língua Magüta é geralmente classificada como uma língua isolada, entretanto pode estar relacionada à língua yuri, considerada até o momento, como extinta.

De acordo com a história oral relatada pelos próprios Magüta, eles eram índigenas que habitavam a terra firme e as cabeceiras dos igarapés. Viviam em constante guerra com outros povos e também entre si (guerras entre aldeias Magütagü), sempre liderados por um tó-i (chefe militar). Durante esse período, seu principal inimigo era o povo tupi omágua (awane na língua Magüta) que dominava boa parte da várzea e possuía uma supremacia militar em relação aos seus vizinhos. Os omáguas dificultavam seu trânsito nas margens dos grandes rios, limitando-os ao centro das matas e impedindo-os de buscar condições mais favoráveis de sobrevivência na região.

Sua história é marcada por contatos violentos com outros povos ameríndios, seringueiros, madeireiros e pescadores na região do rio Solimões. Os primeiros contatos com os não indigenas datam do final do século XVII, quando jesuítas espanhóis vindos do Peru, liderados pelo padre Samuel Fritz, começaram a fundar diversos aldeamentos ao longo do rio Solimões, que correspondem aos atuais municípios de São Paulo de Olivença, Amaturá, Fonte Boa e Tefé. Tais aldeamentos eram voltados, principalmente, para os omáguas, que eram muito mais numerosos na época, porém outros povos acabaram sendo incorporados, como os Magüta, miranhas, xumanas, passés e juris (sendo esses três últimos extintos em meados do século XIX). Nesse momento dos aldeamentos, os Magüta puderam ocupar locais da várzea do rio Solimões antes ocupados pelos omáguas. De acordo com registro do padre José de Morais, em 1860, foi somente com a exploração da borracha que os Tikuna, desalojados dos centros das matas pelos caucheiros, passaram a aparecer mais frequentemente nas beiras dos rios.

Na década de 1890, comerciantes vindos do interior do Ceará se estabeleceram na região e criaram diversos seringais, utilizando a mão de obra Magüta. A expropriação fundiária e o controle do trabalho indígena foram realizados por meios violentos, como a caçada aos indígenas, distribuição das famílias em vários seringais e destruição das malocas. Até meados de 1940, os Magütagü ficaram sob o poder dos "patrões" seringalistas, os quais controlavam todas as instituições político-administrativas e religiosas. Tanto os missionários capuchinhos italianos como os delegados do Serviço de Proteção ao Índio eram controlados pelos "patrões" e não tinham nenhum poder para ajudar os Magüta contra a escravização.

Em 1940, o Serviço de Proteção ao Índio começou a agilizar uma ação mais intensiva na região do alto rio Solimões, local onde os ticunas estavam habitando, não só para poder ajudar os grupos indígenas que ali habitavam, mas também para resolver problemas na fronteira com os países vizinhos (como a Questão de Letícia). Em 1942 foi construído um posto indígena em Tabatinga, coordenado pelo inspetor Carlos Pinto Correia, o que diminuiu parte do poder dos seringalistas sobre os indígenas.

A partir da demarcação das terras Magüta, em 1992, vários grupos que viviam em outras terras indígenas se deslocaram para a terra Magüta, motivados pela aproximação com sua história, com os valores de seu povo, com a floresta e a Natureza. Os Magütagü criaram aldeias em regiões de igarapés, e afastaram-se dos não-indígenas e seus bens mercantis. A volta aos igarapés, mais estreitos do que os rios, permitiu ao povo Magüta fiscalizar melhor a pesca predatória, comum no Solimões e controlada pelos proprietários de grandes barcos pesqueiros.

Normalmente, as aldeias ribeirinhas se dividem em bairros clânicos sob comando moral de um ancião, um modelo adaptado do ambiente endogâmico tradicional do "pai da casa". Os Magüta realizam rituais xamânicos e praticam a residência uxorilocal, pela qual os novos casais habitam junto à família da esposa.

Políticas na terra do alto nos anos 1970 e 1980 estimularam a reunião de comunidades isoladas para obterem benefícios em saúde, educação e alimentação. A maior parte se reuniu em aldeias às margens dos grandes rios. Os Magütagü da terra do alto se distribuem em dois conjuntos territoriais. O primeiro fica às margens esquerda e direita do rio Amazonas, no Peru e na Colômbia. O segundo se situa nas bacias dos rios Cotuhué (Colômbia) e Putumayio (Colômbia e Peru). As vilas e comunidades Magütagü da terra do alto são garantidas por títulos coletivos e se agrupam em resguardos (Colômbia) e terras concedidas (Peru). Cada aldeia é dotada de um posto de saúde sob responsabilidade dos indígenas. Desde os anos 1960, no Peru, e 1980, na Colômbia, a educação é bilíngue e ministrada por professores magüta formados.

Algumas aldeias foram constituídas sob promessas religiosas. A aldeia peruana de Cushillo Conca surgiu por influência de um missionário evangélico estadunidense, e as colombianas Macedonia (por um visionário indígena) e de Arara (por um padre católico) também seguiram o mesmo caminho. Práticas rituais, cultos religiosos e esportes coletivos foram condenados pelos líderes messiânicos e substituídos por hábitos "brancos". No século XXI, observa-se uma tendência de reintrodução dos costumes tradicionais por demanda dos Magütagü e dos brancos em busca da autenticidade étnica daquele povo.

As políticas sociais dos diferentes Estados, como a oferta de assistência técnica e auxílio material na Colômbia e a seguridade social brasileira aos maiores de 60 anos estimulam a mobilidade dos Magüta, que conheceram numerosos booms econômicos: o corte de madeiras nobres, a coleta de peles de animais silvestres e o turismo comunitário foram algumas das atividades desenvolvidas. Inicialmente envolvidos através do aliciamento de grupos ilegais no transporte ou laboratórios clandestinos nas terras altas, na década de 2000 os Magüta do Peru começaram a cultivar a folha de coca, pois o cultivo é permitido naquele país para consumo medicinal e tribal. Tais atividades ilegais provocaram um clima de confronto com as autoridades nacionais e a prisão de alguns indivíduos, do lado brasileiro, sentindo-se isolados em relação ao aliciamento e à ausência de poderes legais no combate ao uso de narcóticos ilegais, algumas comunidades Magüta organizaram grupos e milícias para combater tais atividades, ações constantemente confrontadas pelos poderes do judiciário brasileiro.

O povo Magütagü acredita que foi pescado por Yo'i (um dos principais heróis culturais) das águas vermelhas do igarapé Eware. Por isso, se denominam Magüta, ou "povo pescado com vara" (de Magü, "pescar com vara" e o sufixo indicativo de coletivo -ta). Depois de pescados, o povo Magüta passou a residir na montanha Taiwegüne, nos arredores da casa de Yo'i, lugar sagrado para os atuais ticunas.

No povo Tikuna há uma tradição ancestral que envolve todos os membros da comunidade, a festa da moça nova, ou no idioma dos próprios Ticunas (Worecütchiga). O ritual consiste em festejar quando uma moça tem sua primeira menstruação (menarca). Ele se inicia desde a infância da moça, e até depois da primeira menstruação.

O povo ticuna têm seu próprio idioma. Uma língua tonal e geneticamente isolada, de fonologia e sintaxe complexas. Há mais de 70 mil falantes no Brasil, Colômbia e Peru. Ademais, a língua ticuna é classificada como nominativo-acusativa e pro-drop. No lado brasileiro, a língua ticuna é falado em mais de cem aldeias e nove municípios do estado do Amazonas, (Benjamin Constant,Tabatinga,São Paulo de Olivença, Amaturá, Santo Antônio do Iça, Jutaí, Fonte Boa, Tonantins e Beruri). O povo Magüta em trânsito nas cidades dos municípios onde se situam suas aldeias usam a língua ticuna entre si e com os que ali se fixaram. Os filhos dos que se fixaram nas cidades usam com frequência a língua ticunacom seus pais. Em casos raros, a língua cede lugar ao português. Já os que se deslocaram para Manaus sofrem uma imposição muito mais forte do português.

Anúncio

Em breve no aplicativo World in Stories

Áudio, download offline, sem anúncios e muito mais.

Conhecer Premium
Ticunas | World in Stories