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Vicente Biurrun

Futebolista espanhol

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José Vicente Fernández Biurrun (São Paulo, 1 de Setembro de 1959) é um ex-futebolista hispano-brasileiro. Notabilizou-se como único brasileiro a ter jogado pelo Athletic Bilbao, clube famoso por sua política restrita a futebolistas oriundos do País Basco (nativos ou, como ele, ali crescidos) ou, como também no caso dele, a descendentes de bascos.

Curiosamente, ele também defendeu a rival Real Sociedad, inclusive em tempos em que este clube adotava medida similar, só abrindo-se livremente a partir de 1989 para estrangeiros sem origens bascas; e ainda o Osasuna, outro rival local do Athletic. Biurrun igualmente jogou pela própria seleção basca.

Comentando em 2017 sobre ter vivido diversos lados dos dérbis bascos, afirmou que "torço pela Real, mas a equipe que mais me reconhece é o Athletic. Em Bilbao vivi os melhores anos da minha carreira e ali, ainda hoje, me sinto querido e apreciado. Ao Osasuna sempre agradecerei que me desse a oportunidade de estrear e jogar na primeira divisão".

No idioma basco, seu nome é referido como Bixente Biurrun. Além dele, o outro brasileiro a ter defendido o Athletic foi um técnico, cargo para a qual o clube não se restringe - sendo de 1958 a 1961 treinado por Martim Francisco.

Seus pais eram bascos a trabalho em São Paulo, cidade em que nasceu, crescendo no bairro do Brás; sua família, sem conseguir prosperar em negócio próprio, voltou à terra de origem quando Biurrun tinha cinco anos de idade. Sair tão cedo o fazia ter memórias limitadas de seu tempo no Brasil, bem como inviabilizou que viesse a aprender a língua portuguesa.

Declararia em entrevista à revista Placar em 2021 sentir-se mais basco do que brasileiro; já havia comentado algo parecido ao jornal Mundo Deportivo em 1986, declarando-se basco "pelos quatro cantos" e, sobre São Paulo, que "nasci ali por circunstâncias, meus pais são de San Sebastián". Na mesma nota à Placar, contou ainda que jamais chegara a voltar à terra de nascença, embora também revelasse que a ligação com ela lhe faz torcer pela seleção brasileira nas Copas do Mundo FIFA, bem como pelo Corinthians, ainda mantendo preservadas fotos infantis trajando o uniforme alvinegro; entre 1961 e 1962, este clube possuía em seu elenco o espanhol José Ufarte, que viria a jogar a Copa do Mundo FIFA de 1966 pela Espanha.

Biurrun chegou a enfrentar clubes brasileiros em amistosos. Em agosto de 1989, defendeu o Athletic Bilbao contra o Fluminense, em empate em 0-0 em San Mamés. Ele se recorda especialmente de derrota de 4-2 no Troféu Cidade de Barcelona para o São Paulo em 1991, pelo Espanyol, duelo que repercutiu no Brasil especialmente por representar uma volta de Telê Santana ao estadi de Sarrià, onde o treinador fora derrotado com a seleção brasileira na Copa do Mundo FIFA de 1982.

Campeão sem jogar na Real Sociedad

Biurrun cresceu na cidade de San Sebastián, terra da Real Sociedad. Iniciou-se no futebol em times de praia, sendo inscrito pela Real desde a equipe do Danak de Heriz. Inicialmente, militou em jogos da Segunda División B (a terceira divisão espanhola) pela equipe B, apelidada Sanse. Foi incorporado ao time principal em julho de 1981, juntando-se a Roberto López Ufarte (marroquino de nascença) como um raro jogador alviazul nascido no exterior, embora fossem considerados espanhóis "para todos os efeitos" em função da ancestralidade; na época, o clube ainda adotava política de restringir-se a jogadores bascos, tal como o rival Athletic Bilbao, a quem inclusive havia influenciado a igualmente restringir-se desde a década de 1910; a Real só passou em 1989 a abrir-se livremente a estrangeiros sem origens bascas, o que viria a incluir os também brasileiros Júlio César, Luiz Alberto, Rossato, Sávio, Jonathas e Willian José.

Ainda em agosto de 1981, a equipe adulta testou Biurrun no segundo tempo de vitória de 3-0 em duelo basco com o Alavés, em amistoso festivo aos 300 anos da cidade de Vitoria-Gasteiz. Contudo, a concorrência com Luis Arkonada, então o melhor goleiro espanhol, foi um empecilho para que o novato triunfasse no elenco principal. Recém-campeã de La Liga pela primeira vez, na temporada 1980-81, a Real sagrou-se na temporada 1981-82 bicampeã espanhola seguida, únicos títulos dos txuri-urdin até hoje na competição. Na de 1982-83, o time venceu a Supercopa da Espanha e foi semifinalista tanto na Copa do Rei como na Liga dos Campeões da UEFA. Visto como maior goleiro do clube e um dos principais da Europa, Arkonada era também o capitão do elenco donostiarra, ao passo que Biurrun passara aquelas duas temporadas basicamente sem minutos em campo.

O brasileiro pudera jogar alguns outros amistosos pela Real, incluindo um contra a seleção francesa, na preparação desta para a Copa do Mundo FIFA de 1982. Biurrun, embora chegasse a ter figurinha em álbum de cromos da temporada 1982-83 de La Liga, era no antigo Atotxa apenas a terceira opção de goleiro, com Pedro Otxotorena sendo o reserva imediato de Arkonada. Desconsiderando-se cinco amistosos que havia jogado até dezembro de 1982, Biurrun no máximo pôde ser inscrito no banco de reservas em algumas partidas, diante de lesões pontuais de Otxotorena, mas sem chegar a ser colocado no gramado. Biurrun descreveria em 2016 a sensação mista de ser recorrentemente campeão sem jogar como "uma prisão muito bonita"; ainda em 1982, declarava-se "uma pessoa ambiciosa" com "todo o tempo do mundo pela frente" para triunfar "na Real... ou em qualquer outro lugar".

Seguindo sem espaço na Real, veio a ser negociado com o Osasuna. Na equipe da Navarra, pôde finalmente estrear em La Liga, em 6 de setembro de 1983. Contudo, inicialmente foi reserva também no novo clube, dessa vez para Javier Vicuña. Mas, ao fim, sobressaiu-se com duas temporadas consideradas como brilhantes em Pamplona, chegando a disputar Liga Europa da UEFA; foi ao fim da temporada 1984-85, no que representou a primeira vez em que o time, 6º colocado, classificou-se a alguma competição continental. Em El Sadar, a origem brasileira e ter defendido um pênalti do brasileiro sevillista Carlos Alberto Pintinho fizeram com que Biurrun acabasse inclusive apelidado de "Pintinho" também. No início da temporada seguinte, chegou a interessar em setembro o Real Madrid; em outubro, recebeu uma primeira convocação à seleção espanhola.

Com o tempo, aquelas temporadas seriam vistas como estabilizadoras dos Rojillos na Primeira Divisão Espanhola. O goleiro acabou contratado em 1986 pelo Athletic Bilbao, como substituto de Andoni Zubizarreta, em negociação intrincada que envolveu o próprio novo clube de Zubizarreta, o Barcelona; foi a equipe catalã quem pagou diretamente aos navarros por Biurrun para então doar o passe dele aos bilbaínos em troca de Zubi, como abatimento do preço deste. O brasileiro inicialmente imaginava que iria ser reserva de Zubizarreta no Athletic e, sem desejar reviver a situação já experimentada com Arkonada, só concordou com a negociação exatamente por conta da participação dos blaugranas; até então, estava mais atraído por proposta paralela do Atlético de Madrid. A contratação foi especialmente complicada porque envolveu a própria Real Sociedad, ainda detentora de metade dos direitos do goleiro mesmo após tê-lo negociado com o Osasuna três anos antes; chegou a haver protestos do ex-clube precisamente por declarar ter recebido menos dinheiro do que lhe caberia.

Na época, a rivalidade entre Athletic e Osasuna ainda não estava acesa, só florescendo a partir da década de 1990. Biurrun despediu-se sob aplausos como osasunista: ao ser substituído aos 20 minutos de vitória amistosa por 3-0 sobre o Bordeaux em 9 de maio de 1986, foi ovacionado pela plateia navarra.

Uma vez em Bilbao, logo se firmou na titularidade, apoiado pelo ídolo local José Ángel Iríbar, histórico ex-goleiro do time. Desde que Iríbar parara de jogar, a torcida dos Leones, embora amparasse inicialmente cada sucessor, costumava criar desconfianças instantâneas a partir da primeira falha cometida, o que impedia que os substitutos conseguissem se firmar de modo duradouro. O próprio Iríbar era então o treinador do clube e, em novembro de 1986, a rápida aprovação do brasileiro era notícia no jornal Mundo Deportivo: "substituir Zubi não é tarefa fácil para ninguém, mas entre o que o Barcelona pagou e a chegada de Vicente Biurrun, está claro que o Athletic não fez um mal negócio".

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