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Violência urbana

Violência urbana é a expressão usada para designar ataques relativamente sérios à lei e à ordem pública em cidades.

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Violência urbana é a expressão usada para designar ataques relativamente sérios à lei e à ordem pública em cidades.

Depois que as insurreições raciais agitaram as grandes cidades americanas em 1968, o sociólogo afro-americano Kenneth Clark declarou, à comissão de Kerner reunida a pedido do presidente americano Lyndon Baines Johnson: "Eu leio este relatório de motins em Chicago de 1919 e é como se eu lesse o relatório da Comissão de investigação das desordens no Harlem de 1935, o relatório de investigação daquelas de 1943, o relatório da Comissão McCone sobre os motins em Watts. Eu devo sinceramente lhes dizer, membros da Comissão, que se acreditaria em 'Alice no País das Maravilhas', com o mesmo filme que nos é eternamente passado: mesma análise, mesmas recomendações, mesma inação".

Esta intervenção já datada destaca três grandes características do que se chama "violência urbana":

Sua antiguidade relativa, como nos Estados Unidos da América.

Sua irrupção esporádica em períodos e em cidades diferentes.

A incapacidade aparente das autoridades para compreendê-las e, assim, combatê-las.

Se a primeira característica deve ajudar os historiadores a defini-la, elas parecem imperceptíveis no exame das duas outras, seu caráter eminentemente eruptivo e os supostos erros das autoridades públicas em procurar delimitá-las, circunscrevê-las, impedem finalmente de definir com precisão o problema. Para contornar a dificuldade de delimitação do objeto e evitar o longo prazo de análise, os autores fazem consequentemente recurso a uma definição limitada do fenômeno que corresponde somente à sua forma mais recente, aquela que examina as últimas décadas, menos, os últimos anos. Assim, Sophie Body-Gendrot afirma que a expressão "violência urbana" indica "ações ligeiramente organizadas de jovens que agem coletivamente contra os bens e as pessoas, geralmente ligadas às instituições, em territórios desqualificados ou prejudicados". É a definição que se pode reter sabendo bem que ela é restritiva, e que tende, por exemplo, a naturalizar as pesadas variáveis que pesam nos atores que agem com violência, notadamente a juventude, uma variável que não é que pouco questionada pelos especialistas. É entretanto uma definição eficaz no sentido que não se pode por razões de concisão, ter toda ação violenta perpetrada num quadro urbano ser considerada « uma violência urbana », mesmo se este deslizamento for às vezes necessário.

A cidade como lugar de interiorização e de repreensão da violência

A interiorização da violência pela urbanização

A violência em geral cobre uma diversidade de comportamentos ou atos individuais, interpessoais ou mesmo coletivos. De uma época como de uma sociedade à outra, como recordado pelo filósofo Yves Michaud, as formas de violência empregadas e sua intensidade variam muito. Falaríamos hoje por exemplo de uma "violência na estrada" ou de uma "insegurança no trânsito". Mas isso não é tudoː nossa sensibilidade a estas formas de violência mudou. Segundo o autor, as normas aumentaram. Assim, comportamentos violentos passados outrora pelo silêncio como o mau-trato infantil ou as violências conjugais são, hoje, denunciadas: a violência circulando na esfera familiar é, assim, particularmente recente. Tudo isto explica, sempre segundo Yves Michaud, a extensão da incriminação no direito penal. Cada vez mais, o direito penal vê a violência como não sendo necessariamente apenas física.

Para explicar a sensibilização maior quanto à violência, nós podemos recorrer à célebre teoria da "civilização das maneiras" segundo a qual o Ocidente teria conhecido, a partir da Idade Média, um longo processo de polimento das maneiras: os conflitos que antes se exprimiam em afrontamentos sangrantes tenderam de mais em mais a serem interiorizados, por exemplo, via esporte. Segundo Norbert Elias, o promotor da dita teoria, esta evolução não é mais imputável a um simples crescimento do autocontrole, mas à sua generalização a todos os setores da vida pública ou privada sob impulsos de vários fatores tais quais a escolarização, a difusão dos códigos de corte e, enfim, a urbanização. A cidade é, aqui, reputada estar na origem da interiorização da violência pelo homem: a evolução desta interiorização no seio das massas impôs, a estas, maior controle dos seus atos.

A repreensão da violência às margens da cidade

Seguindo Nobert Elias, o historiador Jean-Claude Chesnais sublinhou por sua vez o declínio tendencial da violência nas sociedades modernas, estudou entretanto somente a violência própriamente física.. Mas outros historiadores vieram a contradizer esta ideia após a publicação dos trabalhos do historiador americano Tedd Gurr, realizada nos anos 1970-anos 1980, os quais interpretaram a violência em termos de privação: ela se desenvolveria quando a elevação das aspirações dos indivíduos não se acompanhava mais de uma melhora comparável de sua qualidade de vida. É o que teria acontecido com as sociedades ocidentais a partir da década de 1930, na qual Ted Gurr observa uma reversão completa da tendência, isto é, um aumento agora durável da violência, do homicídio, da criminalidade, dos roubos ou da delinquência, seguindo uma curva em J. A tese de Ted Gurr é, às vezes, evocada pelo nome de "teoria da curva em J" por esta razão. Na França, segundo Sebastian Roché, esta escalada continua a se observar a partir da metade dos anos 1950. Ela é independente, segundo ele, do contexto econômico : "A delinquência aumenta particularmente durante os anos de reconstrução e de prosperidade. Depois da metade dos anos 1980, ela tende a se estagnar, e isto apesar do aumento do desemprego de longa duração e dos fenômenos de exclusão". Mesmo se este diagrama é, ele mesmo, controverso, é importante tê-lo na cabeça durante o estudo das violências urbanas propriamente ditas, que apresentam uma evolução diferente.

Anteriormente, devemos nos recordar que um dos princípios da organização da cidade sempre foi pensado como o recuo da violência para fora de seus muros; em oposição à campanha ao redor, uma campanha considerada o lugar de todas as revoltas e pilhagens, uma campanha onde o movimento de pacificação ocorreu tardiamente, o que explica o êxodo rural maciço para "esta tênue luz libertária do anonimato" das cidades, de acordo com a expressão da historiadora Elisabeth Claverie. É necessário ver contudo, que este anonimato é ambivalente porque também é uma condição de existência de todas as espécies de tráfegos quem podem finalmente contribuir para a violência da cidade.

Seja como for, como observa, por exemplo, Michel Foucault em "Vigiar e punir", os grandes complexos industriais europeus foram construídos na orla das cidades para prevenir as revoltas operárias. Do mesmo modo, nos Estados Unidos, os campus foram construídos fora das cidades para afastar a ameaça estudantil. As populações mais depauperadas em busca de trabalho instalaram-se também nos subúrbios. Ora, no inconsciente coletivo, o subúrbio continua, por excelência, o lugar à margem, aquele que acolheria marginais e bárbaros. A partir da Idade Média, o subúrbio é este espaço que se situa a uma milha da cidade e onde cessa o o poder senhoril; este espaço para além do qual não se faz mais parte da Cidade e por conseguinte da civilização. As violências "urbanas" não são, por assim dizer, mais do que violências suburbanas; em todo caso, excluem-se da definição as violências perpetuadas no seio das manifestações que reivindicam quanto a elas logicamente uma maior visibilidade no centro da cidade: a violência se encontra no coração mesmo da cidade por esta última ser o centro do poder político a derrubar. Para o político, que é tentado a pensar a violência como contagiosa, esta aposta na segregação poderia finalmente ser feliz com a separação e classificação dos indivíduos elegendo a forma-prisão como modelo ideal de controle desde os finais do século XVIII, segundo Foucault (o.c.)

O recente reaparecimento da violência urbana

O aparecimento da violência urbana e conexões

Apesar da repressão de todos os tempos, a cidade tem sido sempre palco de violência. Assim, em uma carta dirigida ao prefeito de Londres 1730, o escritor Daniel Defoe reclamava que "os cidadãos não mais se sentem seguros em suas próprias casas, nem sequer atravessando as ruas". As "violências urbanas" aparecem claramente nos Estados Unidos por volta dos anos 1960 e na França no início dos anos 1980. Na sequência destes incidentes, as violências urbanas serão regularmente perpetradas, mas em escala menor (como o vandalismo e, a partir dos anos 1980, o hooliganismo por exemplo), tornando-se quotidiana e assumindo diferentes formas, tanto contra a propriedade quanto contra as pessoas, e podendo ser físicas ou simbólicas, com erupções ocorrendo ocasionalmente, como em 2005 por toda a França.

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