Neste Dia

Yoñlu

Músico brasileiro (1989–2006)

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Vinicius Gageiro Marques (Porto Alegre, 1 de setembro de 1989 – Porto Alegre, 26 de julho de 2006), mais conhecido pelo seu nome artístico Yoñlu, foi um músico brasileiro que cometeu suicídio em 2006, aos 16 anos de idade. Foi um dos primeiros casos de suicídio assistido via internet no Brasil.

Durante sua adolescência, Vinicius escrevia resenhas de discos MPB em inglês para os sites que costumava frequentar. (suas preferidas eram as dedicadas a João Gilberto) e tinha conhecimento básico sobre galês. Com o pseudônimo Yoñlu, Vinicius deixou um legado de cerca de 60 canções, que revelaram uma intrigante produção musical, todas compostas e gravadas inteiramente por ele em seu quarto. As faixas trazem letras reflexivas e melodias invariavelmente melancólicas, sendo marcadas pela confluência de gêneros.

Em 2008, a gravadora goiana Allegro Discos reuniu 23 dessas músicas e lançou o primeiro álbum póstumo entitulado de Yoñlu. Mas o que põe a música de Vinicius num patamar mundial é o anúncio do licenciamento de sua obra para o selo nova-iorquino Luaka Bop, de propriedade de David Byrne, com encarte desenhado pelo americano Paul Hornschemeier. O cantor e compositor escocês foi o responsável pelo resgate da obra musical de Tom Zé e é um notório admirador da música brasileira. Bryne selecionou 14 canções em um disco de caráter conceitual, A Society In Which No Tear Is Shed Is Inconceivably Mediocre, sendo o segundo lançamento póstumo de Marques. "Gostamos das músicas antes de ouvir a história de seu autor", disse à época Yale Evelev, um dos gestores da marca.

Yoñlu sofria de depressão e estava sob internação domiciliar há dois meses quando se matou. O suicídio, explicado em uma carta deixada aos pais, foi compartilhado ao vivo com um grupo de amigos na internet que não só o incentivaram como também lhe deram conselhos sobre o melhor método.

Sobre o fim das investigações do caso feitas pelas autoridades, o pai de Yoñlu relata:

As instituições policiais carecem de recursos materiais e humanos, bem como de uma legislação específica com amparo em convênios internacionais que permitisse investigar outros crimes, que não apenas pedofilia e prostituição infantil, pela internet. Mais: essas insuficiências induzem as autoridades da Polícia Federal, da Polícia Civil e do Ministério Público Criminal a arquivar os inquéritos que extrapolam sua limitada competência, quando a sociedade desejaria que abrissem uma discussão pública sobre a necessidade de uma adequação institucional às novas tecnologias para garantir a segurança, em especial, das crianças e adolescentes.

Também sobre o assunto, o psicanalista de Yoñlu, Mario Corso, disse:

Eu acredito que para o Vinícius foi absolutamente decisivo o fato de alguém cortar essa teia que o prendia à vida. Ele brincava com a ideia de morrer como uma saída para as crises de angústia e desespero. Mas tinha laços fortes com a vida que podiam resgatá-lo. Sem aquele último estímulo ele não teria tido coragem para se matar, como não teve das outras vezes. Talvez a polícia tenha se sentido impotente frente ao tamanho da tarefa a fazer. Porque realmente seria muito difícil encontrar e responsabilizar essa gente. Sentiram-se impotentes e chegaram a essa conclusão brilhante. Que o culpado era o suicida.

O psicanalista Mario Corso disse que Vinicius Gageiro Marques apresentou melhorias e recaídas ao longo tratamento e resolveu contar à imprensa parte do histórico médico do garoto por considerar um caso de interesse público.

O Vinícius herdou do pai a profundidade política, social, e da mãe a perspicácia emocional. Tinha o que poderíamos chamar de excesso de lucidez. Mas sem condições de suportar essa carga por causa da pouca idade. Era um menino que tinha uma capacidade de compreender profundamente o mundo, mas não tinha a consistência emocional para dar conta do que via, do que decodificava. Reduzido a si mesmo, via-se deformado, feio, pequeno. Ele tinha uma hipersensibilidade ao mundo que lhe fazia bastante mal. Como se ele vivesse um pouco o noticiário, o mundo como ele acontece. Era uma caixa de ressonância do mundo. (...) Ele sofria com a brutalidade do mundo. Este era um tema caro para ele: sofria vendo as pessoas sendo humilhadas, sofria com a hierarquia. Ele tinha uma compreensão hiperbólica do mundo. Era como se para ele a escravidão não tivesse acabado no Brasil. Ele ficava imaginando como era a vida da empregada, do porteiro. Ele fica tentando imaginar como essa vida era e como eles cabiam nessa vida que ele achava pequena e estreita. E como sofriam por isso.

Vinícius Gageiro Marques nasceu em 1 de setembro de 1989, na cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Filho de Ana Maria Gageiro, uma professora e psicanalista, e Luiz Marques, ex-secretário de Cultura, que também era professor em uma faculdade. Devido ao trabalho de sua mãe, ele se mudou para Paris quando tinha três anos e começou a aprender francês, mas mudou-se de volta ao Brasil, quando tinha sete anos. Ele também gradualmente começou a aprender inglês assistindo TV e ouvindo música, e até começou a aprender a falar galês e ler em espanhol. Devido a isso, seu pai começou a dizer que Vinícius tinha um "desequilíbrio químico", então ele começou a falar com terapeutas a partir dos nove anos. O talento musical de Marques também aspirava desde cedo. Aos 4 anos, ele começou a tocar bateria pela primeira vez, e mais tarde começou a tocar piano e guitarra.

Para combater sua crescente depressão e deslocamento na escola e na vida real, Marques tinha uma presença frequente na internet. Aos 13 anos, começou a capturar sua vida diária através de uma câmera russa Lomo que comprou com a mãe, e começou a demonstrar um sentido crítico sobre a música pop. Em 26 de julho de 2004, inscreveu-se em um fórum de jogos chamado RLLMUK e, rapidamente, tornou-se regular por lá. Também fez um blog via Blogspot, chamado "Lone Cannoneer". O blog chegou a ficar fora do ar devido ao grande número de acessos diários. Ele foi desativado por um cracker em 2007 a pedido do pai de Vinícius, por conter fotos de outros integrantes da família.

Ao longo de sua adolescência, Vinícius colaborou com outras pessoas através da música (que incluiu uma colaboração com Sabrepulse) ou por meio de projetos de fotos e desenhos compartilhados, fotos, mixagens, e música que ele fez, e tornou-se um fã de muitos tipos de artistas. Embora descrito com "praticamente sem amigos reais", Yoñlu era querido por muitos de seus colegas de escola. Era um artista virtual definido como genial por amigos virtuais ingleses, escoceses, belgas, canadenses e norte-americanos.

Yoñlu tinha mostrado ter pensamentos suicidas em maio de 2006, quando postou em um tópico que fez na RLLMUK afirmando "Rápido, alguém dizer algo muito bom sobre minhas músicas antes de decidir matar-me". No entanto, devido a generosas palavras de apoio, decidiu "adiar" o seu suicídio, e frequentemente mencionou que iria se matar logo após partilhar as suas canções com os outros, até sua morte. Por volta deste tempo, sua mãe encontrou as letras de sua canção chamada "Suicide Song" em sua cama, e em um estado frenético, confrontou-o sobre o assunto e procurou encontrar mais traços de pensamentos suicidas, e começou-o uma sessão da terapia. No entanto, Marques parecia estar melhorando.

A amiga de Vinícius, Luana Groch, disse em uma entrevista, que atualmente está guardada no acervo pessoal do Gilberto Gil e disponibilizado na internet, que o comportamento muito extrovertido do Vinícius em sala de aula era uma "fachada", o "Pipoca": (...) ele não queria ser daquele jeito. Vinícius dizia que não conseguia passar o que sentia, a não ser quando estava cantando e escrevendo. Ele falava muito sobre depressão, às vezes tinha que ir embora no meio da aula porque não aguentava a pressão. No começo, ainda tinha forças, (...) mas, às vezes (...) dizia: 'Hoje eu quase cometi uma loucura'. (...) Se achava insuportável!

Ana Maria Gageiro, também em entrevista à Rolling Stone, disse que Vinícius provavelmente sofria de transtorno dismórfico corporal: "Às vezes ele me dizia que achava que seu corpo estava aos pedaços". Luiz Marques o definiu como "One-Dimensional Man".

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