Zuleika de Souza Netto OMC (Curvelo, 5 de junho de 1921 — Rio de Janeiro, 14 de abril de 1976), mais conhecida como Zuzu Angel, foi uma estilista brasileira.
Personagem notória do Brasil da época da ditadura militar, ficou conhecida nacional e internacionalmente não apenas por seu trabalho inovador como estilista, mas também por sua procura pelo filho, Stuart Angel, assassinado pelo governo ditatorial militar e transformado em desaparecido político, enfrentando as autoridades da época.
Em 2014, a Comissão Nacional da Verdade recebeu de Cláudio Antônio Guerra, ex-agente da repressão que operou como delegado do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) do Espírito Santo, a confirmação da participação dos agentes da repressão na morte de Angel.
Em 2019, sua filha Hildegard Angel se dirigiu ao 8.º cartório do Registro Civil da Tijuca, na Zona Norte do Rio de Janeiro, com um mandado judicial, e conseguiu finalmente emitir as certidões de óbito de sua mãe, Zuleika, e de seu irmão, Stuart. As causas das mortes foram atestadas como "morte não natural, violenta, causada pelo Estado brasileiro, no contexto da perseguição sistêmica e generalizada à população identificada como opositora política ao regime ditatorial de 1964 a 1985".
Em 2025, a certidão de óbito de Zuzu Angel, morta em 1976, foi oficialmente retificada pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, reconhecendo que a morte foi violenta e causada pelo Estado brasileiro, no contexto da perseguição política promovida pela ditadura militar.
Nascida em uma família humilde de Curvelo, no interior de Minas Gerais, mudou-se ainda na infância para Belo Horizonte, onde começou a ajudar os pais na despesa de casa, ajudando sua mãe a costurar para fora. Em suas brincadeiras nos tempos livres, utilizava retalhos que sobravam das costuras da mãe para criar modelos de manequins, fazendo roupas para as primas e para as bonecas delas. Alguns anos depois, sua família mudou-se para Salvador, na Bahia, onde Zuzu passou sua adolescência e juventude. A rica cultura afro-brasileira e as cores quentes da capital baiana influenciaram significativamente o estilo das suas criações. Pioneira na moda brasileira, fez sucesso com seu estilo em todo o mundo, principalmente nos Estados Unidos.
Em 1939 foi morar sozinha no Rio de Janeiro, em busca de reconhecimento profissional e independência financeira. Na capital fluminense, passou a trabalhar por conta própria, costurando roupas da vizinhança, até conseguir emprego registrado como costureira em um ateliê de moda, só tendo oportunidade de iniciar seus trabalhos como estilista nos anos 50, quando começou a desenhar modelos de roupas e costurá-los, principalmente para alguns familiares e amigos próximos. No início dos anos 70, após muitos anos trabalhando como costureira e estilista, investiu suas economias que juntou uma vida toda na abertura de uma loja de roupas em Ipanema, conseguindo obter êxito.
Seu estilo misturava renda, seda, fitas e chitas com temas regionais e do folclore, com estampados de pássaros, borboletas e papagaios. Zuzu também trouxe para a moda as pedras brasileiras, fragmentos de bambu, de madeira e conchas.
Sempre trabalhando muito, com os anos de clientela fez algumas amizades importantes na Zona Sul do Rio de Janeiro, e através de ajudas de pessoas ricas e bem-intencionadas que reconheciam seu trabalho, teve a oportunidade de expandir seus negócios e começou a realizar desfiles de moda nos EUA. Nestes desfiles, sempre abordou a alegria e riqueza de cores da cultura brasileira, fazendo sucesso no universo da moda daquela época. Suas roupas eram bem costuradas e muito coloridas, pois ela passou a, além de costurar e desenhar, pintá-las. O Angel (anjo), de seu sobrenome artístico passou a ser uma das marcas registradas de suas criações. Foi ela quem trouxe para o Brasil e popularizou no universo da moda nacional o termo "fashion designer".
Em 1940, Zuzu conheceu o americano Norman Angel Jones, quando estava visitando a casa de seus pais em Belo Horizonte. A partir dessa amizade, iniciou um relacionamento amoroso com ele, e se casou em 1943, voltando a viver em Belo Horizonte. Após dois anos morando na capital mineira, Zuzu e o marido mudaram-se para o Rio de Janeiro, e após seis meses, foram viver em Salvador, onde Zuzu engravidou e deu à luz seu primeiro filho, chamado Stuart Angel Jones, nascido em 1947. Em 1948 voltaram a viver no Rio de Janeiro, onde fixaram residência. Em 1949 nasceu sua filha, Hildegard Angel Jones e em 1952, veio ao mundo a caçula Ana Cristina Angel Jones. Devido a constantes divergências conjugais, em 1960, Zuzu e Norman desquitaram-se. Ela manteve outros relacionamentos, mas não quis se casar novamente, e continuou a assinar seu sobrenome de casada Angel Jones em seu nome artístico.
Na virada dos anos 60 para os anos 70, Stuart Jones, filho de Zuzu e então estudante de economia, passou a integrar as organizações de esquerda que combatiam a ditadura militar no Brasil, instaurada em 1964, filiando-se ao MR-8, grupo guerrilheiro de ideologia socialista do Rio de Janeiro. Preso em 14 de maio de 1971, Stuart foi torturado e morto pelo Centro de Informações da Aeronáutica (CISA) no aeroporto do Galeão e dado como desaparecido pelas autoridades.
A partir daí Zuzu entraria em uma guerra contra o regime pela recuperação do corpo de seu filho, envolvendo os Estados Unidos, país de seu ex-marido e pai de Stuart. Como estilista, ela criou uma coleção estampada com manchas vermelhas, pássaros engaiolados e motivos bélicos.
Em seu desfile de Zuzu, International Dateline Collection III- Holiday and Resort, apresentou suas criações com temática de protesto, através de estampas e do desfile ela assume o papel de remetente de uma mensagem política enviada de forma não verbal. Com ilustração de pássaros presos em gaiolas, assim como anjos ensanguentados, ao lado de caminhões de guerra e canhões. Com traços infantis, seus desenhos pareciam ser feitos por uma criança, como se estivessem sendo feitos pelo seu filho, "pequeno anjo". Como precursora da moda no Brasil, empresária e mãe de um desaparecido político, expõe pela moda suas intenções de mudança de cenário político e social nas produções. No final do desfile, Zuzu revelou que a peça na qual vestia representava a forma como ela criadora representava seu luto em todos os lugares a partir da morte de seu filho. Em um vestido longo preto que era complementado por uma manto preto que cobria sua cabeça, além de um cinto com cem crucifixos no pescoço, e um pingente em formato de anjo. Logo, por meio de sua intenção política e repercussão internacional, seu desfile teve um papel de mecanismo de uma mudança cultural, histórica e política no que se diz respeito ás posições de poder.
Em setembro de 1971, ela chegou a realizar um desfile-protesto no consulado do Brasil em Nova York, tecnicamente território brasileiro, pois uma lei da ditadura militar impedia que brasileiros criticassem o país no exterior. Fazendo o desfile no consulado – que foi pego de surpresa pelo tema – ela não podia ser acusada de criticar o país fora dele.
Em 15 de setembro daquele ano, sua luta chegava aos jornais internacionais, com a manchete no canadense The Montreal Star: "Designer de moda pede pelo filho desaparecido". Cinco dias depois era a vez do Chicago Tribune trazer a manchete "A mensagem política de Zuzu está nas suas roupas". Uma filmagem deste desfile, de cerca de quatro minutos, feita pela rede norte-americana NBC e nunca exibida antes, foi achada anos depois nos arquivos da TV Cultura de São Paulo e exibida na mostra "Ocupação Zuzu", inaugurada em São Paulo em 1 de abril de 2014, exatamente 50 anos depois do início governo militar que ela combateu após a morte de Stuart.
Suas roupas passaram a ser vendidas em lojas de renome como Bergdorf Goodman, Saks, Lord & Taylor, Henry Bendell e Neiman Marcus. Com sua relativa notoriedade internacional, ela envolveu em sua causa celebridades de Hollywood que eram suas clientes, como Joan Crawford, Liza Minelli e Kim Novak.