Há figuras na história da arte que parecem pertencer mais à lenda do que à realidade, e Antônio Francisco Lisboa — o Aleijadinho — é uma delas. Escultor, entalhador e arquiteto nascido em Ouro Preto por volta de 1730, ou mais provavelmente 1738, ele legou ao Brasil colonial um conjunto de obras de tamanha expressividade que, séculos depois, seu nome permanece no centro de debates, homenagens e disputas acadêmicas. Falecido em 18 de novembro de 1814 na mesma cidade que o viu nascer, o Aleijadinho é considerado por muitos especialistas o maior nome do Barroco americano.
Sua trajetória pessoal já começa marcada pela ambiguidade que acompanharia toda a sua história. Filho natural de Manuel Francisco Lisboa, respeitado mestre de obras e arquiteto português, e de Isabel, escrava africana de seu pai, Antônio nasceu numa condição que combinava proximidade com o poder e vulnerabilidade social. De acordo com a certidão de batismo invocada pelo biógrafo Rodrigo José Ferreira Bretas, Antônio foi batizado em 29 de agosto de 1730 na freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias, em Vila Rica, atual Ouro Preto, e alforriado nesse mesmo ato por seu pai e senhor. Sua certidão de óbito, porém, registra que ao morrer, em 1814, ele tinha 76 anos — o que aponta para 1738 como data de nascimento mais provável, data aceita pelo Museu Aleijadinho em Ouro Preto.
Essa incerteza sobre seu ano de nascimento é apenas um exemplo do terreno instável em que se constrói qualquer investigação sobre sua vida. A principal fonte biográfica disponível é uma nota escrita por Bretas em 1858, quarenta e quatro anos após a morte do artista. O próprio Bretas se baseou em documentos e testemunhos de pessoas que teriam conhecido o Aleijadinho pessoalmente, incluindo trechos de um memorando do capitão Joaquim José da Silva, redigido em 1790 e que mais tarde se perdeu. A crítica contemporânea tende a encarar a biografia de Bretas com ceticismo: ela seria, em grande medida, uma narrativa romantizada construída para elevar o artista à condição de herói nacional, um gênio singular cuja vida precisava ser dramática para justificar a grandeza da obra.
A condição física que originou o apelido pelo qual o artista ficou mundialmente conhecido é um dos aspectos mais controversos de sua biografia. A doença que afetou progressivamente seus membros — e que alguns documentos históricos associam à lepra ou a outras condições degenerativas — teria comprometido suas mãos e pés ao longo do tempo. A imagem que a tradição popular consagrou é a de um artista que, incapaz de segurar as ferramentas com os dedos, as amarrava nos pulsos para continuar esculpindo. Esse detalhe, independentemente de sua veracidade, tornou-se parte indissociável do mito em torno de sua figura.
Toda a produção do Aleijadinho se concentrou em Minas Gerais, especialmente nas cidades de Ouro Preto, Sabará, São João del-Rei e Congonhas. Seu estilo incorpora elementos do Barroco e do Rococó, manifestando-se em talhas, projetos arquitetônicos, relevos e estatuária. Mais de quatrocentas criações são hoje associadas ao seu nome, embora a atribuição da maior parte delas tenha sido feita sem documentação formal, apoiada principalmente em critérios de semelhança estilística com as peças cujas autorias estão comprovadas. Essa lacuna documental alimenta debates que ainda hoje dividem historiadores da arte.
Entre suas obras mais celebradas estão a Igreja de São Francisco de Assis de Ouro Preto e o Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas. Neste último, encontra-se um dos conjuntos escultóricos mais impressionantes do continente americano: os profetas bíblicos em pedra-sabão posicionados no adro da igreja e os grupos dos passos da Paixão de Cristo esculpidos em cedro, dispostos em capelas ao longo de um percurso devocional. A combinação de movimento, expressão e domínio técnico presente nessas peças é o que consolidou a reputação internacional do Aleijadinho como um dos grandes artistas do Ocidente.
O processo de monumentalização de sua figura ao longo do século XX acrescentou camadas adicionais de complexidade à sua história. Os modernistas brasileiros da primeira metade do século passado fizeram interpretações por vezes tendenciosas de sua vida e obra, amplificando estereótipos que ainda circulam na imaginação popular. Sua figura foi instrumentalizada por projetos políticos e ideológicos de variadas orientações, que enxergavam no artista mestiço, pobre e físicamente debilitado que teria criado obras magníficas um símbolo conveniente de resistência e identidade nacional.
O estado de Minas Gerais o transformou em um de seus gênios tutelares. Seu nome aparece em escolas, ruas, praças e roteiros turísticos. As cidades onde ele trabalhou organizam parte de sua identidade cultural em torno do legado que ele deixou nas pedras e na madeira. Para os moradores de Ouro Preto, Congonhas ou São João del-Rei, o Aleijadinho não é apenas uma figura do passado: é uma presença viva nas igrejas, nos museus e nas fachadas que compõem o cenário cotidiano.
Pesquisadores estrangeiros chegaram a apontar o Aleijadinho como o maior representante do Barroco americano, posicionando-o ao lado dos grandes nomes da arte ocidental. Seja qual for o tamanho exato da contribuição que pode ser atribuída diretamente a ele — e esse debate continua aberto — o que não está em disputa é a existência de uma obra extraordinária associada ao seu nome e ao seu tempo, erguida no coração de Minas Gerais, que resiste ao tempo com a mesma teimosia de quem, segundo a lenda, amarrava ferramentas nos pulsos para não parar de criar.

