Caio Mário (em latim: Gaius Marius; em grego clássico: Γαίος Μάριος; romaniz.: Gaíos Mários; Arpino, c. 157 a.C. – Roma, 86 a.C.) foi um político da gente Mária da República Romana. É conhecido como o "terceiro fundador de Roma" por suas vitórias militares (os outros dois foram o próprio Rômulo e Marco Fúrio Camilo, que expulsou os gauleses da Itália séculos antes). Caio Mário, o Jovem, cônsul em 82 a.C., era seu filho.
Foi eleito cônsul por sete vezes, um feito sem precedentes na história de Roma, servindo com Lúcio Cássio Longino, Caio Flávio Fímbria, Lúcio Aurélio Orestes, Quinto Lutácio Cátulo, Mânio Aquílio, Lúcio Valério Flaco e Lúcio Cornélio Cina. Destacou-se ainda por suas reformas militares, especialmente por autorizar o recrutamento de cidadãos romanos sem terras para o exército e por reorganizar a estrutura das legiões em divisões menores, chamadas coortes, dando origem às legiões que perdurariam pelo resto da história romana.
O historiador Plutarco dedicou-lhe um dos volumes em Vidas Paralelas, comparando-o a Pirro, rei do Epiro.
Mário nasceu em Arpino, ao sul do Lácio, por volta de 157 a.C. em uma família de classe média. A cidade havia sido conquistada pela República no final do século IV e, na época, seus cidadãos receberam a cidadania romana, mas sem direito de voto. Somente em 188 a.C. é que a cidadania plena lhes foi concedida.
Apesar de Plutarco afirmar que o pai de Mário era um trabalhador que cuidava de uma granja com suas próprias mãos, esta informação é seguramente falsa, pois era comum exagerar a pobreza dos homens novos (como eram chamados os cidadãos romanos sem ascendência nas principais famílias romanas). O fato de Mário ter ligações com a nobreza em Roma (os Cecílios Metelos) e suas relações matrimoniais com a nobreza local de Arpino são indicações de que ele deve ter pertencido a uma família de certa importância de ordem equestre. Os problemas que teve que enfrentar em sua carreira são indicativos das dificuldades que encontravam os homens novos em suas carreiras políticas na capital da República.
Existe uma lenda sobre a infância de Mário que conta que, ainda um adolescente, ele encontrou um ninho de águia com sete filhotes no interior. Como as águias eram considerados os animais sagrados de Júpiter, o deus supremo dos romanos, o fato foi analisado mais tarde como um presságio de sua eleição para o consulado por sete vezes. Assim que assumiu o consulado pela primeira vez, Mário decretou que a águia fosse o símbolo do Senado e do Povo de Roma, criando a águia romana, que manteve seu status por muitos séculos.
O início de seu serviço militar se deu na Guerras Celtiberas e provavelmente já estava lá por muitos anos quando chegou Cipião Emiliano. Adaptou-se rapidamente à disciplina estrita imposta pelo novo comandante e, novamente segundo Plutarco, causou uma boa impressão ao general, ganhando várias condecorações. Teria sido Emiliano que convenceu Mário a tentar a carreira política, mesmo sendo um homem novo. Nesta etapa, Mário apresentou sua candidatura a tribuno militar e, segundo Salústio, apesar de ser um desconhecido dos eleitores em Roma, as tribos o elegeram por conta de seus méritos militares.
A família de Mário era cliente dos Cecílios Metelos, a mais poderosa família romana na época, e o jovem contou com o apoio de Quinto Cecílio Metelo Numídico para conseguir ser eleito tribuno da plebe em 120 a.C.. Ao ser eleito, Mário conseguiu sua admissão ao Senado romano, o que lhe abriu a possibilidade de iniciar seu cursus honorum para, em algum momento, almejar o consulado.
Durante seu mandato como tribuno, Mário começou a revelar as características contraditórias que marcariam sua carreira política. De fato, ao mesmo tempo que se indispunha com a nobreza e com seu próprio propretor por causa de uma proposta, a Lex Tabellaria, que dificultava a pressão coercitiva da oligarquia nas votações, indispunha-se também com o povo ao se opor à populista Lex Frumentaria, que ampliava a porção de trigo devida à plebe (e com esta porção, a inerente corrupção e compra de votos). Não se sabe se, nestes casos, Mário atuava pelos interesses dos equestres ou numa agenda própria.
Seja como for, sua carreira política sofreu uma paralisação transitória, pois ele se apresentou como candidato e perdeu as eleições para edil curul e edil plebeu. Estas derrotas foram, pelo menos em parte, devidas à inimizade da família Metelo. Era de se supor que a sua origem modesta não lhe daria acesso às magistraturas mais altas, mas, em 116 a.C., foi nomeado pretor, em circunstâncias aparentemente tão duvidosas que provocaram o estabelecimento de um julgamento de ambitu, por acusações de suborno. Mário ganhou por pouco e conseguiu o posto de pretor em Roma (como pretor urbano, pretor peregrino ou como presidente da corte).
Depois de seu mandato de um ano na capital, em 114 a.C. Mário foi enviado para governar a Hispânia Ulterior como propretor. Ao que parece, participou de algum enfrentamento militar de pouca importância e, quando voltou, não apenas não recebeu um triunfo como também não aproveitou a oportunidade de ganhar fama ou riqueza. Como na época era habitual que o posto de governador da Hispânia fosse ocupado por mandatos de dois anos, é provável que ele tenha sido substituído em 113 a.C..
Em 110 a.C., Mário casou-se com Júlia Maior, tia de Júlio César, cuja origem patrícia e a influência de sua família favoreciam à sua aspiração ao consulado. Porém, era uma família que não detinha tanto poder até então — havia conseguido produzir um único cônsul em todo o século II a.C. — o que, em que pese ser um avanço, este casamento de forma alguma lhe assegurava um progresso político significativo por si só. Por outro lado, este matrimônio revela que Mário já havia adquirido uma certa influência política em Roma.
Quando parecia que a carreira política de Mário estava encerrada, seria uma nova crise militar para Roma, neste caso na Numídia, que permitiria que Mário se apresentasse novamente perante a opinião pública como um habilidoso comandante militar.
O Reino da Numídia havia saído fortalecido da Segunda Guerra Púnica. O príncipe númida Massinissa desertou para o lado romano durante a invasão romana na África cartaginesa comandada por Cipião Africano e, como recompensa, ganhou um extenso reino que os romanos criaram para utilizar como contraponto ao poder cartaginês. A partir daí, a Numídia seria uma boa fonte de tropas e provisões para Roma, tanto na África como fora dela, como foi o caso da Guerra Numantina, quando Jugurta dirigiu um contingente de cavaleiros e elefantes númidas.
Apesar disto, as habituais lutas dinásticas internas entre os próprios númidas colocaram em confronto o próprio Jugurta (sobrinho e filho adotivo do rei Micipsa) e seus irmãos adotivos Aderbal e Hiempsal. Depois que este foi assassinado, Aderbal fugiu para Cirta, onde estavam assentados diversos comerciantes romanos e itálicos, que o ajudaram a defender a cidade. Porém, quando Jugurta conseguiu a rendição de Cirta, todos eles foram executados. Os romanos, ultrajados, ordenaram que Jugurta seguisse imediatamente até Roma, mas ele preferiu subornar senadores influentes até conseguir, inclusive, a morte de um outro parente que estava refugiado em Roma. Depois, em 110 a.C., o general romano na Numídia, Aulo Postúmio Albino, sofreu uma importante derrota na Batalha de Sutul (uma fortaleza númida), quando Jugurta realizou um ataque surpresa com a ajuda de vários contingentes romanos corrompidos por seus subornos.