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Atlântida

Continente, ilha ou cidade mitológica mencionada por Platão

7 min de leitura01/01/2024
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Atlântida (em grego clássico: Ἀτλαντὶς νῆσος – trad.: “ilha de Atlas”) é uma ilha fictícia mencionada nas obras Timeu e Crítias do filósofo grego Platão como parte de uma alegoria sobre a arrogância das nações. Na história, Atlântida é descrita como um império naval que governava todas as partes ocidentais do chamado mundo conhecido, tornando-a a contra-imagem literária do Império Aquemênida. Depois de uma tentativa malfadada de conquistar a "Antiga Atenas", Atlântida cai em desgraça com as divindades e submerge no Oceano Atlântico. Como Platão descreve Atenas como semelhante ao seu estado ideal na obra A República, a história da Atlântida pretende testemunhar a superioridade do seu conceito de Estado.

Apesar de sua importância secundária na obra de Platão, Atlântida teve um impacto considerável na literatura em geral. O aspecto alegórico da história foi retomado em obras utópicas de vários escritores renascentistas, como Nova Atlântida de Francis Bacon e Utopia de Thomas More. Por outro lado, estudiosos amadores do século XIX interpretaram mal a narrativa de Platão como sendo uma tradição histórica, sendo o mais famoso deles Ignatius L. Donnelly. As vagas indicações de Platão sobre a época dos acontecimentos (mais de 9 mil anos antes de sua época) e a suposta localização de Atlântida ("além dos Pilares de Hércules") deram origem a muita especulação pseudocientífica. Como consequência, Atlântida tornou-se sinônimo de toda e qualquer suposta civilização pré-histórica perdida avançada e continua a inspirar a ficção contemporânea, desde histórias em quadrinhos até filmes.

Embora os filólogos e classicistas atuais concordem sobre a natureza ficcional da história, ainda há debate sobre o que serviu de inspiração. Sabe-se que Platão tomou emprestadas livremente algumas de suas alegorias e metáforas de tradições mais antigas, como fez com a história de Giges. Isto levou vários estudiosos a sugerir uma possível inspiração da Atlântida nos registros egípcios da erupção de Tera, da invasão dos Povos do Mar, ou da Guerra de Tróia. Outros rejeitaram esta cadeia de tradição como implausível e insistem que Platão criou um relato inteiramente fictício, inspirando-se livremente em eventos contemporâneos, como a fracassada invasão ateniense da Sicília em 415-413 a.C. ou a destruição de Helique em 373 a.C..

As únicas fontes primárias sobre Atlântida são os diálogos Timeu e Crítias do filósofo grego Platão; todas as outras menções à ilha são baseadas nestas referências. Os diálogos afirmam citar Sólon, que teria visitado o Egito entre 590 e 580 a.C. onde teria traduzido registros egípcios sobre Atlântida. Platão introduziu Atlântida no Timeu, escrito em 360 a.C.:

Muitos e grandes foram os feitos da vossa cidade que são motivo de admiração nos registos que deles aqui ficaram. Mas, entre todos eles, destaca-se um em grandeza e beleza; os nossos escritos referem como a vossa cidade um dia extinguiu uma potência que marchava insolente em toda a Europa e na Ásia, depois de ter partido do Oceano Atlântico. Em tempos, este mar podia ser atravessado, pois havia uma ilha junto ao estreito a que vós chamais Colunas de Héracles – como vós dizeis; ilha essa que era maior do que a Líbia e a Ásia juntas, a partir da qual havia um acesso para os homens daquele tempo irem às outras ilhas, e destas ilhas iam directamente para todo o território continental que se encontrava diante delas e rodeava o verdadeiro oceano. De facto, aquilo que está aquém do estreito de que falamos parece um porto com uma entrada apertada. No lado de lá é que está o verdadeiro mar e é a terra que o rodeia por completo que deve ser chamada com absoluta exactidão “continente”. Nesta ilha, a Atlântida, havia uma enorme confederação de reis com uma autoridade admirável que dominava toda a ilha, bem como várias outras ilhas e algumas partes do continente; além desses, dominavam ainda alguns locais aquém da desembocadura: desde a Líbia ao Egipto e, na Europa, até à Tirrénia. Esta potência tentou, toda unida, escravizar com uma só ofensiva toda a vossa região, a nossa e também todos os locais aquém do estreito.

De acordo com Crítias, as antigas divindades helênicas dividiam a terra para que cada divindade pudesse ter seu próprio lote; Posídon, apropriadamente e ao seu gosto, recebeu Atlântida. A ilha era maior do que a Antiga Líbia e a Ásia Menor juntas, mas foi afundada por um terremoto e tornou-se um banco de lama intransponível, inibindo viagens para qualquer parte do oceano. Platão afirmou que os egípcios descreviam Atlântida como uma ilha que consistia principalmente de montanhas nas porções norte e ao longo da costa, abrangendo uma grande planície em forma oblonga no sul "estendendo-se em uma direção por três mil estádios [cerca de 555 quilômetros], mas no centro e pelo interior eram dois mil estádios [cerca de 370 quilômetros]." Há 50 estádios [9 quilômetros] da costa havia uma montanha baixa por todos os lados ... a própria ilha central tinha cinco estádios de diâmetro [cerca de 0,92 quilômetros].

No conto metafórico de Platão, Posídon se apaixonou por Cleito, filha de Evenor e Leucipe, que lhe deu cinco pares de gêmeos homens. O mais velho deles, Atlas, foi nomeado rei legítimo de toda a ilha e do oceano (chamado de Oceano Atlântico em sua homenagem) e recebeu a montanha onde nasceu e a área circundante como seu feudo. O gêmeo de Atlas, Gadeirus, ou Eumelus em grego, recebeu a extremidade da ilha em direção aos Pilares de Hércules.

De acordo com Critias, 9 mil anos antes de sua vida ocorreu uma guerra entre aqueles que estavam fora dos Pilares de Hércules, no Estreito de Gibraltar, e aqueles que viviam dentro deles. Os atlantes conquistaram as partes da Antiga Líbia, dentro dos Pilares de Hércules, até o Antigo Egito, e o continente europeu, até à Tirrênia, e submeteram o seu povo à escravatura. Os atenienses, por sua vez, lideraram uma aliança de resistências contra o império atlante e, à medida que a aliança se desintegrou, prevaleceram sozinhos contra o Império Atlante, libertando as terras ocupadas por eles:

Mas depois ocorreram violentos terremotos e inundações; e em um único dia e noite de infortúnio todos os seus homens guerreiros afundaram na terra e a ilha de Atlântida da mesma maneira desapareceu nas profundezas do mar. Por isso o mar naquelas partes é intransponível e impenetrável, porque há um banco de lama no caminho; e isso foi causado pelo afundamento da ilha.

O logógrafo Helânico de Lesbos escreveu uma obra anterior intitulada Atlântida, da qual sobreviveram apenas alguns fragmentos. Seu trabalho parece ter sido genealógico relacionado às filhas de Atlas (Ἀτλαντὶς em grego significa "de Atlas"), mas alguns autores sugeriram uma possível conexão com a ilha descrita por Platão. O pesquisador irlandês John V. Luce observa que quando Platão escreve sobre a genealogia dos reis de Atlântida, ele escreve no mesmo estilo de Helânico, o que sugere uma semelhança entre um fragmento da obra de Helânico e o relato em Critias. O autor britânico Rodney Castleden sugere que Platão pode ter emprestado seu título de Helânico, que pode ter baseado seu trabalho em um trabalho anterior sobre a Atlântida.

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